quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Fernando Pessoa

DIÁLOGO NA SOMBRA

A . — Quisera saber como és feito por dentro ... Como é a tua vontade por dentro, que coisas há naquela parte do teu sentir que tu não medes que sentes.
E . — Tão feminina nisso ... E és da matéria das coisas irreais!
A . — Quando levantas um braço eu queria saber porque coisas do além, tu levantas esse braço ... O que há por detrás de o tu quereres levantar e de saberes porque o queres levantar? Vim contigo há tanto e não sei quem tu és... Reparo às vezes nos pequenos gestos que fazes e vejo quão pouco sei de ti ...
E . — Eu próprio não sei quem eu sou ... Meus gestos são entes estranhos quando reparo neles, e sombras incertas quando não reparo. São uma perpétua revelação a mim próprio. Sou tão exterior a conhecer‑me como o mundo externo ... Entre o meu querer erguer um braço e ele erguer‑se vai um intervalo divino ... Transponho, entre pensar e falar, um abismo sem fundo humano.
A . — Eu sou simples como uma pedra no caminho ou uma rosa numa roseira.
E . — És simples porque não te espelhas em ti. Uma pedra no caminho é (atónita) um mistério igual a Deus ... Uma rosa numa roseira é tão compreensível como a Vida ...
A . — Olho‑te e amo‑te e não te possuo nunca. Floriram em (...) as rosas do meu jardim ... Acompanho‑te e perco‑te sempre que olho para ti.
E . — Eu próprio não me acompanho ... como poderás tu acompanhar‑me? Vejo meus pés andar como quem vê passar um cortejo humano nas distâncias e na noite ... Reparo na minha sombra como numa face desconhecida que espreitou de fora à janela da minha moradia ... Não compreendo nada ... Não compreendo nada.
A . — Mas há coisas que tu compreendes e que nunca me confessas. Falas‑me dos teus amores e dos teus desejos mas eu sinto que guardas para ti, fechada na mão, uma jóia qualquer do teu sentimento. Porquê se eu te amo e se somos um só?
E . — Porque nunca somos um só. Aquilo que eu não te digo, apesar de habitarmos juntos este palácio e juntos pensarmos neste jardim. Segredo‑o a mim quando estou mais só e nem ergo a voz, para que me não ouça não sei quem que me não pode ouvir.
A . — Sou a tua Alma e a mim‑próprio não me contas tudo! Passou ontem uma brisa leve pelo jardim. Trouxe perfumes de outros jardins [...]

Fernando Pessoa

Sabem todos que a dialéctica platónica decompõe o movimento do raciocínio em três tempos sucessivos — a tese, a antítese, e a síntese. O mesmo íntimo critério preside ao movimento da ode grega, ou de toda ode — a estrofe, em que se determina a ideia; a antístrofe, em que se Ihe opõe a ideia contrária, que a própria posição daquela exige; o epodo, em que se conciliam as duas. Nem sempre assim era na realização da ode; sempre assim deveria ser.
Toda opinião é uma tese, e o mundo, à falta de verdades, está cheio de opiniões. Mas a cada opinião compete uma contra‑opinião, seja crítica da primeira, seja complemento dela. Na realidade do pensamento humano, essencialmente flutuante e incerto, tanto a opinião primária, como a que Ihe é oposta, são em si mesmas instáveis; não há síntese, pois, nas coisas da certeza, senão tese e antítese apenas. Só os Deuses, talvez, poderão sintetizar.
A estes escritos chamo antíteses porque representam, em sua íntima substância, contra‑opiniões, desmascaramentos, desilusão. À certeza com que cada um pensa o que julga que pensa convém opor a certeza com que se pode pensar o contrário, com que se consegue tornar lógico o absurdo [...]

Fernando Pessoa

Entendamo-nos bem. Ninguém pode ler tudo, sequer sobre um só assunto. É, pois necessário, muitas vezes, citar em segunda-mão, quando não ainda mais translatamente. Não há nisso charlatanice, desde que estejamos convencidos da competência e da probidade do primeiro citador; nem é necessário que estejamos sempre indicando que não citamos do original, enchendo as páginas, que escrevemos, de «citas em segunda-mão», ociosas e importunas. Se eu citar, ainda que no original, uma frase grega ou alemã, não vem a propósito dizerem-me, o que é aliás verdade, que não sei grego nem alemão. E preferível citar em português, até para conveniência do leitor.
Posso traduzir, através de idioma intermédio, qualquer poema grego, desde que consiga aproximar-me do ritmo do original, para o que basta saber simplesmente ler o grego, o que de facto sei, ou que obtenha uma equivalência rítmica.
D'essa maneira traduzi alguns poemas da Antologia Grega. A única coisa a perguntar, a quem saiba grego e português, é se a minha tradução está certa quanto ao sentido do poema, e se consegue uma equivalência rítmica suficiente. A traduções d'essas posso legitimamente apor um «tradução de F.P.», sem que tenha que acrescentar «através do inglês» ou outra frase de igual teor. O que não posso é pôr «traduzido do grego», ou de qualquer modo insinuar que assim traduzi. O que não posso é criticar uma tradução alheia da mesma espécie, excepto como se criticasse um original português, e muito menos posso apor notas sobre o texto grego à minha tradução.
Se amanhã aparecer, sob o meu nome, um opúsculo sobre a cirurgia dos fins, ou uma gramática do sânscrito, induzo necessariamente toda a gente a supor que sei de cirurgia dos rins ou que conheço o idioma devanagrico.

Fernando Pessoa

Dividiu Aristóteles a poesia em lírica, elegíaca, épica e dramática. Como todas as classificações bem pensadas, é esta útil e clara; como todas as classificações, é falsa. Os géneros não se separam com tanta facilidade íntima, e, se analisarmos bem aquilo de que se compõem, verificaremos que da poesia lírica à dramática há uma gradação contínua. Com efeito, e indo às mesmas origens da poesia dramática — Esquilo por exemplo — será mais certo dizer que encontramos poesia lírica posta na boca de diversos personagens.
O primeiro grau da poesia lírica é aquele em que o poeta, concentrado no seu sentimento, exprime esse sentimento. Se ele, porém, for uma criatura de sentimentos variáveis e vários, exprimirá como que uma multiplicidade de personagens, unificadas somente pelo temperamento e o estilo. Um passo mais, na escala poética, e temos o poeta que é uma criatura de sentimentos vários e fictícios, mais imaginativo do que sentimental, e vivendo cada estado de alma antes pela inteligência que pela emoção. Este poeta exprimir-se-á como uma multiplicidade de personagens, unificadas, não já pelo temperamento e o estilo, pois que o temperamento está substituído pela imaginação, e o sentimento pela inteligência, mas tão somente pelo simples estilo. Outro passo, na mesma escala de despersonalização, ou seja de imaginação, e temos o poeta que em cada um dos seus estados mentais vários se integra de tal modo nele que de todo se despersonaliza, de sorte que, vivendo analiticamente esse estado de alma, faz dele como que a expressão de um outro personagem, e, sendo assim, o mesmo estilo tende a variar. Dê-se o passo final, e teremos um poeta que seja vários poetas, um poeta dramático escrevendo em poesia lírica. Cada grupo de estados de alma mais aproximados insensivelmente se tornará uma personagem, com estilo próprio, com sentimentos porventura diferentes, até opostos, aos típicos do poeta na sua pessoa viva. E assim se terá levado a poesia lírica — ou qualquer forma literária análoga em sua substância à poesia lírica — até à poesia dramática, sem, todavia, se lhe dar a forma do drama, nem explícita nem implicitamente.
Suponhamos que um supremo despersonalizado como Shakespeare, em vez de criar o personagem de Hamlet como parte de um drama, o criava como simples
personagem, sem drama. Teria escrito, por assim dizer. um drama de uma só personagem, um monólogo prolongado e analítico. Não seria legítimo ir buscar a esse personagem uma definição dos sentimentos e dos pensamentos de Shakespeare, a não ser que o personagem fosse falhado, porque o mau dramaturgo é o que se revela.
Por qualquer motivo temperamental que me não proponho analisar, nem importa que analise, construí dentro de mim várias personagens distintas entre si e de mim, personagens essas a que atribuí poemas vários que não são como eu, nos meus sentimentos e ideias, os escreveria.
Assim têm estes poemas de Caeiro, os de Ricardo Reis e os de Álvaro de Campos que ser considerados Não há que buscar em quaisquer deles ideias ou sentimentos meus, pois muitos deles exprimem ideias que não aceito, sentimentos que nunca tive. Há simplesmente que os ler como estão, que é aliás como se deve ler.
Um exemplo: escrevi com sobressalto e repugnância o poema oitavo do Guardador de Rebanhos com a sua blasfémia infantil e o seu anti-espiritualismo absoluto. Na minha pessoa própria, e aparentemente real, com que vivo social e objectivamente, nem uso da blasfémia, nem sou anti-espiritualista. Alberto Caeiro porém, como eu o concebi, é assim: assim tem pois ele que escrever, quer eu queira quer não, quer eu pense como ele ou não. Negar-me o direito de fazer isto seria o mesmo que negar a Shakespeare o direito de dar expressão à alma de Lady Macbeth, com o fundamento de que ele, poeta, nem era mulher, nem, que se saiba, histero-epiléptico, ou de lhe atribuir uma tendência alucinatória e uma ambição que não recua perante o crime. Se assim é das personagens fictícias de um drama, é igualmente lícito das personagens fictícias sem drama, pois que é lícito porque elas são fictícias e não porque estão num drama.
Parece escusado explicar uma coisa de si tão simples e intuitivamente compreensível. Sucede, porém, que a estupidez humana é grande, e a bondade humana não é notável.

Fernando Pessoa

A psicologia de qualquer ente humano, como de qualquer agrupamento deve orientar-se no facto seguinte: de que cada espírito, pessoal ou colectivo, tem duas vidas e um aspecto geral proveniente da síntese dessas vidas: a vida que vive para si, a vida que vive para os outros e o modo como estas duas se relacionam, distinguem, penetram ou (...) na formação do indivíduo psíquico. Há em todo o homem - e em toda a sociedade - um instinto materialista e um instinto idealista, interior. Quem passeia, quem passa a vida mesmo entre portugueses, alemães, ingleses - fechando-se para a sua literatura popular ou elevada - não poderá nunca compreender ou conhecer isto, que é um facto certo - de que em cada português, alemão, inglês há, mas não visivelmente e para o exterior, aquele sent[iment]o que um Camões, um Goethe, um Shakespeare traz a público.
Os homens de génio são os representantes dessa alma íntima dos povos; falam alto o que a si mesma a dispersa alma nacional segreda no divino silêncio do ser.
Dado pois que a literatura nada mais é que a voz do subconsciente nacional, oralizado em certos e determinados indivíduos que a natureza investe - por que obscuras leis sociológicas não sabemos ainda - de poder representativo; dado isto, (...)

Ricardo Reis

A moderna literatura é uma literatura de masturbadores.
A moderna literatura é uma lit[eratur]a de masturbadores.
A da Ren[ascença] era de amorosos decadentes. A do romantismo para cá é de masturbadores.
Vejamos:
Há 3 fenómenos sexuais distintos:
(1) a sexualidade normal.
(2) a homossexualidade.
(3) a monossexualidade ou masturbação.

(3) contém 3 elementos
(A) o Sonho, porque é visionado o outro elemento da cúpula.
(B) O desdobramento do Eu, porque o indivíduo figurará como dois no m[es]mo.
(C) O requinte, porque o acto sexual tem de ser investido de várias coisas para não (...)

Como a m[asturbação] leva à pederastia.
Dif[erença] entre a pederastia propriamente dita e aquela que a m[asturbação] produz.
Dif[erença] entre o homossexual antigo e moderno

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Resiliência

Suas palavras têm força...poder
Mas não quer compromisso, tampouco...comprometer-se.
E a vida passa...lentamente...vazia...
Vinhos, champagne, carros, livros, música clássica, mulheres, tudo lindo, perfeito, como deveria ser...e se diz com um entusiasmo quase violento, de quem quer convencer nada mais que a si mesmo de suas próprias crenças, de quem se obriga a tragar uma mentira necessitando desesperadamente acreditar que repetindo 21 vezes será verdade. Porque é assim, a realidade nega! Ah...assim é a vida:
Belezas, viagens, passeios, corpos desnudos...fantasias.
Mas é quando a VIDA sai dos livros, e se concretiza em um nome que lhe bate à porta com força (porque já lhe tocaram o timbre centenas de vezes, mas delicadamente, e sem compromisso, neste caso, sim, se pode deixar entrar...não implica risco)
Então foge, perigo à vista, - a vida deve permacer nos escritos, não podem tomar corpo...nem cheiro...nem gosto!
Foge como uma criança assustada, com medo
É o anti-herói
ou seria o vilão,
Não. Simplesmente um covarde.
Não suporta a dor, já viveu demasiado
e se la vê estampada em outro rosto...é hora de fugir...não tenho força, diz.
Não se involucra em nada para não perder nada
e dessa forma não soma, nem diminui...essa é a sua matemática!!!
Um mundo de fantasias, números positivos e negativos, um mundo de literaturas, um mundo de olhar pela janela...
e como um bom espectador...criticar a dor e o medo, a angústia, a coragem, a felicidade alheia
Esta a que popularmente, quando não la entendemos chamamos Loucura!!!
e...??? Existe algo mais depois disso???

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

...

Há uma voz que grita e outra que cala,
Que enreda e desfaz
Que me cobre e outra desnuda... Total
Os prazeres, os gozos, são efêmeros
Nada fica..tudo fica
estancancado, senta pé e senta o pé
Estas vozes...
Com as minhas intercalam, se unem, se difusam
Fragmentos que não soam... as tuas