terça-feira, 30 de junho de 2009

Me calo, não por não ter palavras. Elas 'brotam' a todo instante por meus pensamentos, minha boca, minhas mãos, meu ouvidos...sentidos e re-sentidos. É tempo de silenciar, silenciar o grito, a dor, silenciar o amor, a falta de fé, o excesso de fé, silenciar a saudade e pensamentos, o sorriso, guardar tudo numa caixa de Pandora e esperar...

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O esquecimento é algo fantástico: nos livra de apertos ou nos coloca neles, nos afasta de realidades e nos aproxima a outras desconhecidas, nos alivia a dor e nos convida a novas sensações, emoções com todas as cores que se possa imaginar e como uma criança sem medo, voltamos a colocar a mão no formigueiro e como o peixinho dourado seguimos.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

...


Idealismos a parte, nossos sonhos não podem simplesmente ser colocados numa caixinha, fechados e guardados numa dispensa. Se somos um pouco do que sonhamos e queremos e refletimos e tentamos de alguma meneira construir nosso mundo ideal (que nem sempre é tão ideal), quanto vale e de que vale? Se alguém chega e quer comprar seu sonho, trocar ou até mesmo pedir como parte de um contrato, o que fazer? Vender a essencia, mudar, refazer, rever. Ou desistir de um para ter outro? Como medir, como saber, como descobrir os limites de tudo, da realidade à fantasia, do desejo à hipocrisia, como saber se é a hora ou o momento já é passado? Quem vai te responder? Olho para tudo isso e foi o que sempre quis e agora nao tem mais sentido, onde está, onde foi que me perdi, em que sonho me perdi e deixei de viver a realidade? Fracassos, decepções, orgulho, medo, lástimas, pena... e com ela escrevo e dou a receita de como não se deve fazer, de como não se deve viver e como não deve morrer! Há receitas para tudo, pode haver uma para desencantar o encantado, adormecer os sonhos e...para esquecer que um dia se acreditou!!!
Um dia me apresentaram a esta cantora e a esta música, nunca pensei que pudesse entrar nos meus gostos...e não sei se entrou...mas sei que cada vez que ouço, sinto um gosto e um cheiro que estão impregnados em todos os meus sentidos!!!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Affonso Romando de Sant'Anna


"Que país é este?" - José de Alencar"Que país é este?" - Machado de Assis"Que país é este?" - Deputado Francelino Pereira"Nenhum Brasil existe. Acaso existirão os brasileiros?" -Carlos Drummond de Andrade
O Brasil tem mudado de pele.E, certamente, de ossatura.Sendo um ser em metamorfose ,há 500 anos, é legítimo que o Brasil de hoje não seja exatamente o de ontem, assim como o de amanhã não será o de agora.Isto contraria uma definição de brasilidade entendida como uma "essência",algo imutável, idêntica a si mesma no fluir dos anos.E introduz uma inquietação e complexidade: o sentimento de "brasilidade" é diferenciado diacrônicamente conforme o momento histórico percorrido, assim como é diverso num mesmo instante sincrônico,conforme as cabeças que pensam o Brasil.
Qual a diferença entre o que ia na cabeça de Martim Afonso de Sousa na primitiva São Paulo do sec. XVI e o que vai na cabeça de um industrial paulista hoje?Qual a diferença ( ou identidade?) entre a visão de Anchieta e Nóbrega e as ações políticas e sociais da Igreja Católica em nossos dias? Em quê o Brasil de Machado de Assis é diferente do de Guimarães Rosa?Niemeyer diz vir de uma tradição barroca.Mas quais as diferenças e identidades entre ele e Aleijadinho?
Diria que, diacrônicamente, o sentimento de brasilidade conheceu pelo menos três instantes específicos: o da defesa da territorialidade, o da expectativa imperial e da consciência nacionalista..E que agora,ao cruzarmos para o século XXI, está sendo de novo redimensionado A incorporação da territorialidade coincidiu com os nossos três primeiros séculos:o colonizador aqui radicado, tendo exterminado e /ou dominado os índios, percebeu que o seu destino e o da terra eram o mesmo. O inimigo mais ameaçador vinha do exterior: os holandeses, os franceses e os corsários que queriam aqui estabelecer entrepostos e colônias.
Com a Independência em 1822 a consciência imperial se configura e domina o resto do sec. XIX .Exemplifica-se em guerras de fronteira,que reafirmam a territorialidade e marcam os avanços geo-econômicos e políticos .Os inimigos não vinham mais da Europa, mas eram nossos vizinhos(Paraguai, Argentina,etc.).Caxias e Rio Branco são emblemas da consciência de territorialidade associada à consciência imperial.
No sec. XX, sobretudo a partir dos anos 20 e 30, e depois nos anos 50 , 60 e 70, com os monopólios estatais, a exacerbação nacionalista propiciou uma alteração neste quadro. A ameaça não era mais guerreira nem fronteiriça, mas econômica.Brasilidade e nacionalismo se confundiram e iniciou-se uma verdadeira disputa ideológica para ver que partido, que líder ou quem era mais e melhor .brasileiro.O modernismo literário com comunistas e integralistas, a disputa entre esquerda e direita, são trilhas nessa estrada.
Esses três instantes mencionados podem, no entanto, se superpor.Defesa da territorialidade, expectativa imperial e consciência nacionalista ,em maior ou menos escala, podem estar no Padre Vieira que pensava no advento do Império de Cristo sediado nos povos de língua portuguesa ou nos intelectuais modernistas que reeditaram o mito expansionista dos bandeirantes e queriam um "Brasil grande" , tanto quanto os generais presidentes, como Geisel.
Se os anos 80 , através da mística da " cidadania" trouxeram a batalha pelos direitos de "minorias" e "excluidos", é possível que os anos 90 estejam sendo um outro momento de inflexão na metamorfose da brasilidade:a entrada na globalidade, força a revisão da consciência nacionalista, cobra uma autocrítica da vocação imperial e confronta a territorialidade real com a territorialidade virtual da era da internet.
Até o final do sec. XIX, por outro lado, a brasilidade era um atributo da elite branca a que tiveram direito os imigrantes que aqui aportaram.Formalmente os ex-escravos negros passaram a se habilitar a ela a partir de 1888 com a lei que os libertou. Os índios apenas no sec. XX, com o Marechal Rondon, começaram a ser convocados para a brasilidade e forçam mais ainda sua participação a partir dos anos 80 .
Sintomáticamente na passagem dos anos 70 para os 80,uma pergunta pairou no ar envolvendo a questão da brasilidade.E aí, os brasileiros explícitamente nos perguntávamos angustiadamente -"Que país é este?". Descobriu-se,então, que em Machado de Assis havia a mesma pergunta numa de suas crônicas. E a mesma indagação estava literalmente escrita num texto de José de Alencar.Isto nos faz supor que Tiradentes lutando pela independência e André Vidal de Negreiros pelejando contra os holandeses também se punham a mesma questão.Mas evidentemente teriam respostas diferentes para a própria perplexidade.
Daqui a cem, duzentos, trezentos anos se poderá fazer outro relatório do Banco do Brasil sobre este tema.O país já não será o mesmo, embora os intelectuais procuremos o ontem no hoje e queiramos projetar o hoje no amanhã .A pergunta será a mesma,mas as respostas serão necessariamente diferentes .A menos ,é claro, que ocorra episódio semelhante ao do fim do Império Romano e o mundo se reorganize de outra forma, talvez sem as nacionalidades como as conhecemos hoje. Com efeito,na Europa, Africa e Asia, neste século, países trocaram de fronteira e de nomes,outros surgiram e desapareceram.E há caso de comunidades como a dos judeus, dos palestinos e dos ciganos que existiram ou existem até sem território.Neste sentido, a América tem sido privilegiada , pois tem mantido seu mapa sem grandes tranformações nos últimos séculos.
No livro "Caráter nacional brasileiro" Dante Moreira Leite reuniu os muitos conceitos de brasilidade expressos desde nossas origens até a metade deste século.É um painel amplo e contraditório.Essa contradição ou dialética sempre existiu. Os autores românticos eram ufanistas. Os modernistas viraram o Brasil pelo avesso, radicalizaram a questão e até chegaram, como Drummond, a duvidar se o Brasil e os brasileiros realmente existiam.
Nas últimas décadas mais teorias surgiram, diferenciando e enriquecendo esse acervo.E assim o país se contrói entre ufanismo e crítica, entre paráfrase laudatória e paródia crítica.O sec. XXI está aí. É possível até que ele já tenha começado quando caiu o muro de Berlim e a internet descentralizou de vez a informação e redestibuiu as fontes de poder.
Ao se fazer a pergunta sobre a brasilidade hoje, de uma coisa pode-se estar certo: a brasilidade não se contenta mais com a territorialidade satisfeita, não se exercita mais numa vocação imperial, não se basta nas disputas nacionalistas.Algo de novo está se configurando.E a primeira condição para se ver o novo é saber assinalar, destacar, descartar ou rearticular o que ficou velho.
Quem tem ouvidos, ouça, e quem tem olhos, veja, diz o pregador.

* artigo publicado no relatário anual do Banco doBrasil/1997 junto com textos de outros intelectuais como Roberto da Matta e Decio Pignatari

Affonso Romando de Sant'Anna

Limite do Amor

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.