segunda-feira, 7 de setembro de 2009


O piano cai, ela olha fixamente e o vê partindo...o mar é implacável,atrae par o seu centro o objeto de sua paixão. Era tudo o que ela tinha e quando o ve com seu peso gigante despedindo-se, sente o vento tocar seus cabelos e falar ao seu ouvido como um conselheiro, destes que não se pode deixar de escutar e se entrega...já não resta nada! Sus esperanças e desejos, seus sonhos mais profundos, tudo mergulhado. Sem exitar, ela se joga em busca de uma conexão ou um sentido à sua vida. As águas mais profundas a levam, cada vez mais abaixo...tenta respirar, já não pode mais, lhe falta o ar...por tudo o que lhe mata, não são as águas, mas sim, a falta de ar e nessa luta, onde a morte é a certeza, ela encontra o Piano e descobre a vida, metamorfosea-se em borboleta e sai a viver. Descobre, enfim, o colorido.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Acima do Sol

Acima Do Sol Skank Composição: Chico Amaral / Samuel Rosa Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Assim ela já vai Achar o cara que lhe queira Como você não quis fazer Sim, eu sei que ela só vai Achar alguém pra vida inteira Como você não quis... Tão fácil perceber Que a sorte escolheu você E você cego, nem nota Quando tudo ainda é nada Quando o dia é madrugada Você gastou sua cota... Eu não posso te ajudar Esse caminho não há outro Que por você faça Eu queria insistir Mas o caminho só existe Quando você passa... Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Quando muito ainda é pouco Você quer infantil e louco Um sol acima do sol Mas quando sempre É sempre nunca Quando ao lado ainda É muito mais longe Que qualquer lugar... Um dia ela já vai Achar o cara que lhe queira Como você não quis fazer Sim, eu sei que ela só vai Achar alguém prá vida inteira Como você não quis... Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Se a sorte lhe sorriu Porque não sorrir de volta Você nunca olha a sua volta Não quero estar sendo mau Moralista ou banal Aqui está o que me afligia... Um dia ela já vai Achar o cara que lhe queira Como você não quis fazer Sim, eu sei que ela só vai Achar alguém pra vida inteira Como você não quis... Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh! Uh

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Fernando Pessoa

DIÁLOGO NA SOMBRA

A . — Quisera saber como és feito por dentro ... Como é a tua vontade por dentro, que coisas há naquela parte do teu sentir que tu não medes que sentes.
E . — Tão feminina nisso ... E és da matéria das coisas irreais!
A . — Quando levantas um braço eu queria saber porque coisas do além, tu levantas esse braço ... O que há por detrás de o tu quereres levantar e de saberes porque o queres levantar? Vim contigo há tanto e não sei quem tu és... Reparo às vezes nos pequenos gestos que fazes e vejo quão pouco sei de ti ...
E . — Eu próprio não sei quem eu sou ... Meus gestos são entes estranhos quando reparo neles, e sombras incertas quando não reparo. São uma perpétua revelação a mim próprio. Sou tão exterior a conhecer‑me como o mundo externo ... Entre o meu querer erguer um braço e ele erguer‑se vai um intervalo divino ... Transponho, entre pensar e falar, um abismo sem fundo humano.
A . — Eu sou simples como uma pedra no caminho ou uma rosa numa roseira.
E . — És simples porque não te espelhas em ti. Uma pedra no caminho é (atónita) um mistério igual a Deus ... Uma rosa numa roseira é tão compreensível como a Vida ...
A . — Olho‑te e amo‑te e não te possuo nunca. Floriram em (...) as rosas do meu jardim ... Acompanho‑te e perco‑te sempre que olho para ti.
E . — Eu próprio não me acompanho ... como poderás tu acompanhar‑me? Vejo meus pés andar como quem vê passar um cortejo humano nas distâncias e na noite ... Reparo na minha sombra como numa face desconhecida que espreitou de fora à janela da minha moradia ... Não compreendo nada ... Não compreendo nada.
A . — Mas há coisas que tu compreendes e que nunca me confessas. Falas‑me dos teus amores e dos teus desejos mas eu sinto que guardas para ti, fechada na mão, uma jóia qualquer do teu sentimento. Porquê se eu te amo e se somos um só?
E . — Porque nunca somos um só. Aquilo que eu não te digo, apesar de habitarmos juntos este palácio e juntos pensarmos neste jardim. Segredo‑o a mim quando estou mais só e nem ergo a voz, para que me não ouça não sei quem que me não pode ouvir.
A . — Sou a tua Alma e a mim‑próprio não me contas tudo! Passou ontem uma brisa leve pelo jardim. Trouxe perfumes de outros jardins [...]

Fernando Pessoa

Sabem todos que a dialéctica platónica decompõe o movimento do raciocínio em três tempos sucessivos — a tese, a antítese, e a síntese. O mesmo íntimo critério preside ao movimento da ode grega, ou de toda ode — a estrofe, em que se determina a ideia; a antístrofe, em que se Ihe opõe a ideia contrária, que a própria posição daquela exige; o epodo, em que se conciliam as duas. Nem sempre assim era na realização da ode; sempre assim deveria ser.
Toda opinião é uma tese, e o mundo, à falta de verdades, está cheio de opiniões. Mas a cada opinião compete uma contra‑opinião, seja crítica da primeira, seja complemento dela. Na realidade do pensamento humano, essencialmente flutuante e incerto, tanto a opinião primária, como a que Ihe é oposta, são em si mesmas instáveis; não há síntese, pois, nas coisas da certeza, senão tese e antítese apenas. Só os Deuses, talvez, poderão sintetizar.
A estes escritos chamo antíteses porque representam, em sua íntima substância, contra‑opiniões, desmascaramentos, desilusão. À certeza com que cada um pensa o que julga que pensa convém opor a certeza com que se pode pensar o contrário, com que se consegue tornar lógico o absurdo [...]

Fernando Pessoa

Entendamo-nos bem. Ninguém pode ler tudo, sequer sobre um só assunto. É, pois necessário, muitas vezes, citar em segunda-mão, quando não ainda mais translatamente. Não há nisso charlatanice, desde que estejamos convencidos da competência e da probidade do primeiro citador; nem é necessário que estejamos sempre indicando que não citamos do original, enchendo as páginas, que escrevemos, de «citas em segunda-mão», ociosas e importunas. Se eu citar, ainda que no original, uma frase grega ou alemã, não vem a propósito dizerem-me, o que é aliás verdade, que não sei grego nem alemão. E preferível citar em português, até para conveniência do leitor.
Posso traduzir, através de idioma intermédio, qualquer poema grego, desde que consiga aproximar-me do ritmo do original, para o que basta saber simplesmente ler o grego, o que de facto sei, ou que obtenha uma equivalência rítmica.
D'essa maneira traduzi alguns poemas da Antologia Grega. A única coisa a perguntar, a quem saiba grego e português, é se a minha tradução está certa quanto ao sentido do poema, e se consegue uma equivalência rítmica suficiente. A traduções d'essas posso legitimamente apor um «tradução de F.P.», sem que tenha que acrescentar «através do inglês» ou outra frase de igual teor. O que não posso é pôr «traduzido do grego», ou de qualquer modo insinuar que assim traduzi. O que não posso é criticar uma tradução alheia da mesma espécie, excepto como se criticasse um original português, e muito menos posso apor notas sobre o texto grego à minha tradução.
Se amanhã aparecer, sob o meu nome, um opúsculo sobre a cirurgia dos fins, ou uma gramática do sânscrito, induzo necessariamente toda a gente a supor que sei de cirurgia dos rins ou que conheço o idioma devanagrico.

Fernando Pessoa

Dividiu Aristóteles a poesia em lírica, elegíaca, épica e dramática. Como todas as classificações bem pensadas, é esta útil e clara; como todas as classificações, é falsa. Os géneros não se separam com tanta facilidade íntima, e, se analisarmos bem aquilo de que se compõem, verificaremos que da poesia lírica à dramática há uma gradação contínua. Com efeito, e indo às mesmas origens da poesia dramática — Esquilo por exemplo — será mais certo dizer que encontramos poesia lírica posta na boca de diversos personagens.
O primeiro grau da poesia lírica é aquele em que o poeta, concentrado no seu sentimento, exprime esse sentimento. Se ele, porém, for uma criatura de sentimentos variáveis e vários, exprimirá como que uma multiplicidade de personagens, unificadas somente pelo temperamento e o estilo. Um passo mais, na escala poética, e temos o poeta que é uma criatura de sentimentos vários e fictícios, mais imaginativo do que sentimental, e vivendo cada estado de alma antes pela inteligência que pela emoção. Este poeta exprimir-se-á como uma multiplicidade de personagens, unificadas, não já pelo temperamento e o estilo, pois que o temperamento está substituído pela imaginação, e o sentimento pela inteligência, mas tão somente pelo simples estilo. Outro passo, na mesma escala de despersonalização, ou seja de imaginação, e temos o poeta que em cada um dos seus estados mentais vários se integra de tal modo nele que de todo se despersonaliza, de sorte que, vivendo analiticamente esse estado de alma, faz dele como que a expressão de um outro personagem, e, sendo assim, o mesmo estilo tende a variar. Dê-se o passo final, e teremos um poeta que seja vários poetas, um poeta dramático escrevendo em poesia lírica. Cada grupo de estados de alma mais aproximados insensivelmente se tornará uma personagem, com estilo próprio, com sentimentos porventura diferentes, até opostos, aos típicos do poeta na sua pessoa viva. E assim se terá levado a poesia lírica — ou qualquer forma literária análoga em sua substância à poesia lírica — até à poesia dramática, sem, todavia, se lhe dar a forma do drama, nem explícita nem implicitamente.
Suponhamos que um supremo despersonalizado como Shakespeare, em vez de criar o personagem de Hamlet como parte de um drama, o criava como simples
personagem, sem drama. Teria escrito, por assim dizer. um drama de uma só personagem, um monólogo prolongado e analítico. Não seria legítimo ir buscar a esse personagem uma definição dos sentimentos e dos pensamentos de Shakespeare, a não ser que o personagem fosse falhado, porque o mau dramaturgo é o que se revela.
Por qualquer motivo temperamental que me não proponho analisar, nem importa que analise, construí dentro de mim várias personagens distintas entre si e de mim, personagens essas a que atribuí poemas vários que não são como eu, nos meus sentimentos e ideias, os escreveria.
Assim têm estes poemas de Caeiro, os de Ricardo Reis e os de Álvaro de Campos que ser considerados Não há que buscar em quaisquer deles ideias ou sentimentos meus, pois muitos deles exprimem ideias que não aceito, sentimentos que nunca tive. Há simplesmente que os ler como estão, que é aliás como se deve ler.
Um exemplo: escrevi com sobressalto e repugnância o poema oitavo do Guardador de Rebanhos com a sua blasfémia infantil e o seu anti-espiritualismo absoluto. Na minha pessoa própria, e aparentemente real, com que vivo social e objectivamente, nem uso da blasfémia, nem sou anti-espiritualista. Alberto Caeiro porém, como eu o concebi, é assim: assim tem pois ele que escrever, quer eu queira quer não, quer eu pense como ele ou não. Negar-me o direito de fazer isto seria o mesmo que negar a Shakespeare o direito de dar expressão à alma de Lady Macbeth, com o fundamento de que ele, poeta, nem era mulher, nem, que se saiba, histero-epiléptico, ou de lhe atribuir uma tendência alucinatória e uma ambição que não recua perante o crime. Se assim é das personagens fictícias de um drama, é igualmente lícito das personagens fictícias sem drama, pois que é lícito porque elas são fictícias e não porque estão num drama.
Parece escusado explicar uma coisa de si tão simples e intuitivamente compreensível. Sucede, porém, que a estupidez humana é grande, e a bondade humana não é notável.

Fernando Pessoa

A psicologia de qualquer ente humano, como de qualquer agrupamento deve orientar-se no facto seguinte: de que cada espírito, pessoal ou colectivo, tem duas vidas e um aspecto geral proveniente da síntese dessas vidas: a vida que vive para si, a vida que vive para os outros e o modo como estas duas se relacionam, distinguem, penetram ou (...) na formação do indivíduo psíquico. Há em todo o homem - e em toda a sociedade - um instinto materialista e um instinto idealista, interior. Quem passeia, quem passa a vida mesmo entre portugueses, alemães, ingleses - fechando-se para a sua literatura popular ou elevada - não poderá nunca compreender ou conhecer isto, que é um facto certo - de que em cada português, alemão, inglês há, mas não visivelmente e para o exterior, aquele sent[iment]o que um Camões, um Goethe, um Shakespeare traz a público.
Os homens de génio são os representantes dessa alma íntima dos povos; falam alto o que a si mesma a dispersa alma nacional segreda no divino silêncio do ser.
Dado pois que a literatura nada mais é que a voz do subconsciente nacional, oralizado em certos e determinados indivíduos que a natureza investe - por que obscuras leis sociológicas não sabemos ainda - de poder representativo; dado isto, (...)

Ricardo Reis

A moderna literatura é uma literatura de masturbadores.
A moderna literatura é uma lit[eratur]a de masturbadores.
A da Ren[ascença] era de amorosos decadentes. A do romantismo para cá é de masturbadores.
Vejamos:
Há 3 fenómenos sexuais distintos:
(1) a sexualidade normal.
(2) a homossexualidade.
(3) a monossexualidade ou masturbação.

(3) contém 3 elementos
(A) o Sonho, porque é visionado o outro elemento da cúpula.
(B) O desdobramento do Eu, porque o indivíduo figurará como dois no m[es]mo.
(C) O requinte, porque o acto sexual tem de ser investido de várias coisas para não (...)

Como a m[asturbação] leva à pederastia.
Dif[erença] entre a pederastia propriamente dita e aquela que a m[asturbação] produz.
Dif[erença] entre o homossexual antigo e moderno

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Resiliência

Suas palavras têm força...poder
Mas não quer compromisso, tampouco...comprometer-se.
E a vida passa...lentamente...vazia...
Vinhos, champagne, carros, livros, música clássica, mulheres, tudo lindo, perfeito, como deveria ser...e se diz com um entusiasmo quase violento, de quem quer convencer nada mais que a si mesmo de suas próprias crenças, de quem se obriga a tragar uma mentira necessitando desesperadamente acreditar que repetindo 21 vezes será verdade. Porque é assim, a realidade nega! Ah...assim é a vida:
Belezas, viagens, passeios, corpos desnudos...fantasias.
Mas é quando a VIDA sai dos livros, e se concretiza em um nome que lhe bate à porta com força (porque já lhe tocaram o timbre centenas de vezes, mas delicadamente, e sem compromisso, neste caso, sim, se pode deixar entrar...não implica risco)
Então foge, perigo à vista, - a vida deve permacer nos escritos, não podem tomar corpo...nem cheiro...nem gosto!
Foge como uma criança assustada, com medo
É o anti-herói
ou seria o vilão,
Não. Simplesmente um covarde.
Não suporta a dor, já viveu demasiado
e se la vê estampada em outro rosto...é hora de fugir...não tenho força, diz.
Não se involucra em nada para não perder nada
e dessa forma não soma, nem diminui...essa é a sua matemática!!!
Um mundo de fantasias, números positivos e negativos, um mundo de literaturas, um mundo de olhar pela janela...
e como um bom espectador...criticar a dor e o medo, a angústia, a coragem, a felicidade alheia
Esta a que popularmente, quando não la entendemos chamamos Loucura!!!
e...??? Existe algo mais depois disso???

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

...

Há uma voz que grita e outra que cala,
Que enreda e desfaz
Que me cobre e outra desnuda... Total
Os prazeres, os gozos, são efêmeros
Nada fica..tudo fica
estancancado, senta pé e senta o pé
Estas vozes...
Com as minhas intercalam, se unem, se difusam
Fragmentos que não soam... as tuas

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Acredite apenas - Bertold Brecht

Acredite apenas no que seus olhos vêem e seus ouvidos ouvem!
Também não acredite no que seus olhos vêem e seus ouvidos ouvem!
Saiba também que não crer algo significa algo crer!

A troca do pneu - Bertold Brecht

Estou sentado de costas para a vala.
O motorista troca o pneu.
Não amo o país de onde venho
Não amo o país para onde vou.
Por que olho a troca do pneu com impaciência?

terça-feira, 28 de julho de 2009

Disney

A Saudade fala portugues‏

Eu tenho saudades

De tudo que marcou a minha vida...
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros, quando escuto uma voz, quando me lembro do passado, eu sinto saudades...

SINTO SAUDADES
de amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...

SINTO SAUDADES
do presente, que não aproveitei de todo, lembrando do passado e apostando no futuro...

SINTO SAUDADES
do futuro, que se idealizado, provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

SINTO SAUDADES
de quem me deixou e de quem eu deixei, de quem disse que viria e nem apareceu; de quem apareceu correndo, sem me conhecer direito, de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

SINTO SAUDADES
dos que se foram e de quem não me despedi direito; daqueles que não tiveram como me dizer adeus;de gente que passou na calçada contrária da minha vida e que só enxerguei de vislumbre; de coisas que eu tive e de outras que não tive mas quis muito ter; de coisas que nem
sei que existiram mas que se soubesse, de certo gostaria de experimentar;

SINTO SAUDADES
de coisas sérias, de coisas hilariantes, de casos, de experiências...

SINTO SAUDADES
do cachorrinho que eu tive um dia e que me amava totalmente, como só os cães são capazes de fazer, dos livros que li e que me fizeram viajar, dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar, das coisas que vivi e das que deixei passar, sem curtir na totalidade;

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que,não sei aonde, para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo SAUDADES em japonês, em russo, em italiano, em inglês, mas que minha saudade, por eu ter nascido brasileiro,
só fala português embora, lá no fundo, possa ser poliglota.
Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria, espontaneamente, quando estamos desesperados, para contar dinheiro, fazer amor e clarear sentimentos fortes,seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples "I Miss You", ou seja lá como possamos traduzir SAUDADE em outra língua, nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.
Talvez não exprima, corretamente, a imensa falta que sentimos de coisas ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais SAUDADES...Porque encontrei uma palavra para usar todas as vezes em que sinto este aperto no peito, meio nostálgico, meio gostoso, mas que funciona melhor do que um sinal vital quando se quer falar de vida e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca de que somos sensíveis, de que amamos muito do que tivemos e lamentamos as coisas boas que perdemos ao longo da nossa existência...

SENTIR SAUDADES, é sinal de que se está vivo e a vida, mesmo com tantas saudades, depois dos amigos, é o bem maior que possuímos !

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Vida - Chaplin


Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveise esquecer pessoas inesquecíveis.
Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas quando nunca pensei me decepcionar,
mas também decepcionei alguém.
Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.
Já gritei e pulei de tanta felicidade,j
á vivi de amor e fiz juras eternas,
“quebrei a cara muitas vezes”!
Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).
Mas vivi, e ainda vivo!
Não passo pela vida…
E você também não deveria passar!
Viva!
Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é “muito” pra ser insignificante.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Pintura na calçada do belga Julian Beever
















Pintura na calçada de Julian Beever


Obra do belga Julian Beever que está ao lado de sua pintura "piscina na calçada'. A ilusão de ótica se dá dependendo do ângulo em que o observador está posicionado.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Me calo, não por não ter palavras. Elas 'brotam' a todo instante por meus pensamentos, minha boca, minhas mãos, meu ouvidos...sentidos e re-sentidos. É tempo de silenciar, silenciar o grito, a dor, silenciar o amor, a falta de fé, o excesso de fé, silenciar a saudade e pensamentos, o sorriso, guardar tudo numa caixa de Pandora e esperar...

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O esquecimento é algo fantástico: nos livra de apertos ou nos coloca neles, nos afasta de realidades e nos aproxima a outras desconhecidas, nos alivia a dor e nos convida a novas sensações, emoções com todas as cores que se possa imaginar e como uma criança sem medo, voltamos a colocar a mão no formigueiro e como o peixinho dourado seguimos.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

...


Idealismos a parte, nossos sonhos não podem simplesmente ser colocados numa caixinha, fechados e guardados numa dispensa. Se somos um pouco do que sonhamos e queremos e refletimos e tentamos de alguma meneira construir nosso mundo ideal (que nem sempre é tão ideal), quanto vale e de que vale? Se alguém chega e quer comprar seu sonho, trocar ou até mesmo pedir como parte de um contrato, o que fazer? Vender a essencia, mudar, refazer, rever. Ou desistir de um para ter outro? Como medir, como saber, como descobrir os limites de tudo, da realidade à fantasia, do desejo à hipocrisia, como saber se é a hora ou o momento já é passado? Quem vai te responder? Olho para tudo isso e foi o que sempre quis e agora nao tem mais sentido, onde está, onde foi que me perdi, em que sonho me perdi e deixei de viver a realidade? Fracassos, decepções, orgulho, medo, lástimas, pena... e com ela escrevo e dou a receita de como não se deve fazer, de como não se deve viver e como não deve morrer! Há receitas para tudo, pode haver uma para desencantar o encantado, adormecer os sonhos e...para esquecer que um dia se acreditou!!!
Um dia me apresentaram a esta cantora e a esta música, nunca pensei que pudesse entrar nos meus gostos...e não sei se entrou...mas sei que cada vez que ouço, sinto um gosto e um cheiro que estão impregnados em todos os meus sentidos!!!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Affonso Romando de Sant'Anna


"Que país é este?" - José de Alencar"Que país é este?" - Machado de Assis"Que país é este?" - Deputado Francelino Pereira"Nenhum Brasil existe. Acaso existirão os brasileiros?" -Carlos Drummond de Andrade
O Brasil tem mudado de pele.E, certamente, de ossatura.Sendo um ser em metamorfose ,há 500 anos, é legítimo que o Brasil de hoje não seja exatamente o de ontem, assim como o de amanhã não será o de agora.Isto contraria uma definição de brasilidade entendida como uma "essência",algo imutável, idêntica a si mesma no fluir dos anos.E introduz uma inquietação e complexidade: o sentimento de "brasilidade" é diferenciado diacrônicamente conforme o momento histórico percorrido, assim como é diverso num mesmo instante sincrônico,conforme as cabeças que pensam o Brasil.
Qual a diferença entre o que ia na cabeça de Martim Afonso de Sousa na primitiva São Paulo do sec. XVI e o que vai na cabeça de um industrial paulista hoje?Qual a diferença ( ou identidade?) entre a visão de Anchieta e Nóbrega e as ações políticas e sociais da Igreja Católica em nossos dias? Em quê o Brasil de Machado de Assis é diferente do de Guimarães Rosa?Niemeyer diz vir de uma tradição barroca.Mas quais as diferenças e identidades entre ele e Aleijadinho?
Diria que, diacrônicamente, o sentimento de brasilidade conheceu pelo menos três instantes específicos: o da defesa da territorialidade, o da expectativa imperial e da consciência nacionalista..E que agora,ao cruzarmos para o século XXI, está sendo de novo redimensionado A incorporação da territorialidade coincidiu com os nossos três primeiros séculos:o colonizador aqui radicado, tendo exterminado e /ou dominado os índios, percebeu que o seu destino e o da terra eram o mesmo. O inimigo mais ameaçador vinha do exterior: os holandeses, os franceses e os corsários que queriam aqui estabelecer entrepostos e colônias.
Com a Independência em 1822 a consciência imperial se configura e domina o resto do sec. XIX .Exemplifica-se em guerras de fronteira,que reafirmam a territorialidade e marcam os avanços geo-econômicos e políticos .Os inimigos não vinham mais da Europa, mas eram nossos vizinhos(Paraguai, Argentina,etc.).Caxias e Rio Branco são emblemas da consciência de territorialidade associada à consciência imperial.
No sec. XX, sobretudo a partir dos anos 20 e 30, e depois nos anos 50 , 60 e 70, com os monopólios estatais, a exacerbação nacionalista propiciou uma alteração neste quadro. A ameaça não era mais guerreira nem fronteiriça, mas econômica.Brasilidade e nacionalismo se confundiram e iniciou-se uma verdadeira disputa ideológica para ver que partido, que líder ou quem era mais e melhor .brasileiro.O modernismo literário com comunistas e integralistas, a disputa entre esquerda e direita, são trilhas nessa estrada.
Esses três instantes mencionados podem, no entanto, se superpor.Defesa da territorialidade, expectativa imperial e consciência nacionalista ,em maior ou menos escala, podem estar no Padre Vieira que pensava no advento do Império de Cristo sediado nos povos de língua portuguesa ou nos intelectuais modernistas que reeditaram o mito expansionista dos bandeirantes e queriam um "Brasil grande" , tanto quanto os generais presidentes, como Geisel.
Se os anos 80 , através da mística da " cidadania" trouxeram a batalha pelos direitos de "minorias" e "excluidos", é possível que os anos 90 estejam sendo um outro momento de inflexão na metamorfose da brasilidade:a entrada na globalidade, força a revisão da consciência nacionalista, cobra uma autocrítica da vocação imperial e confronta a territorialidade real com a territorialidade virtual da era da internet.
Até o final do sec. XIX, por outro lado, a brasilidade era um atributo da elite branca a que tiveram direito os imigrantes que aqui aportaram.Formalmente os ex-escravos negros passaram a se habilitar a ela a partir de 1888 com a lei que os libertou. Os índios apenas no sec. XX, com o Marechal Rondon, começaram a ser convocados para a brasilidade e forçam mais ainda sua participação a partir dos anos 80 .
Sintomáticamente na passagem dos anos 70 para os 80,uma pergunta pairou no ar envolvendo a questão da brasilidade.E aí, os brasileiros explícitamente nos perguntávamos angustiadamente -"Que país é este?". Descobriu-se,então, que em Machado de Assis havia a mesma pergunta numa de suas crônicas. E a mesma indagação estava literalmente escrita num texto de José de Alencar.Isto nos faz supor que Tiradentes lutando pela independência e André Vidal de Negreiros pelejando contra os holandeses também se punham a mesma questão.Mas evidentemente teriam respostas diferentes para a própria perplexidade.
Daqui a cem, duzentos, trezentos anos se poderá fazer outro relatório do Banco do Brasil sobre este tema.O país já não será o mesmo, embora os intelectuais procuremos o ontem no hoje e queiramos projetar o hoje no amanhã .A pergunta será a mesma,mas as respostas serão necessariamente diferentes .A menos ,é claro, que ocorra episódio semelhante ao do fim do Império Romano e o mundo se reorganize de outra forma, talvez sem as nacionalidades como as conhecemos hoje. Com efeito,na Europa, Africa e Asia, neste século, países trocaram de fronteira e de nomes,outros surgiram e desapareceram.E há caso de comunidades como a dos judeus, dos palestinos e dos ciganos que existiram ou existem até sem território.Neste sentido, a América tem sido privilegiada , pois tem mantido seu mapa sem grandes tranformações nos últimos séculos.
No livro "Caráter nacional brasileiro" Dante Moreira Leite reuniu os muitos conceitos de brasilidade expressos desde nossas origens até a metade deste século.É um painel amplo e contraditório.Essa contradição ou dialética sempre existiu. Os autores românticos eram ufanistas. Os modernistas viraram o Brasil pelo avesso, radicalizaram a questão e até chegaram, como Drummond, a duvidar se o Brasil e os brasileiros realmente existiam.
Nas últimas décadas mais teorias surgiram, diferenciando e enriquecendo esse acervo.E assim o país se contrói entre ufanismo e crítica, entre paráfrase laudatória e paródia crítica.O sec. XXI está aí. É possível até que ele já tenha começado quando caiu o muro de Berlim e a internet descentralizou de vez a informação e redestibuiu as fontes de poder.
Ao se fazer a pergunta sobre a brasilidade hoje, de uma coisa pode-se estar certo: a brasilidade não se contenta mais com a territorialidade satisfeita, não se exercita mais numa vocação imperial, não se basta nas disputas nacionalistas.Algo de novo está se configurando.E a primeira condição para se ver o novo é saber assinalar, destacar, descartar ou rearticular o que ficou velho.
Quem tem ouvidos, ouça, e quem tem olhos, veja, diz o pregador.

* artigo publicado no relatário anual do Banco doBrasil/1997 junto com textos de outros intelectuais como Roberto da Matta e Decio Pignatari

Affonso Romando de Sant'Anna

Limite do Amor

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.

domingo, 31 de maio de 2009

sábado, 30 de maio de 2009

Who`s gonna tell you when It`s too late
Who`s gonna tell you things Aren`t so great
You know you can`t go on
Thinking nothing`s wrong
Who`s gonna drive you home tonight
Who`s gonna pick you up
When you fall
Who`s gonna hang it up
When you call
Who`s gonna pay attention
To your dreams
Who`s gonna plug their ears
When you scream
You can`t go on
Thinking nothing`s wrong
Who`s gonna drive you home tonight
Who`s gonna hold you down
When you shake
Who`s gonna come around
When you break
Who`s gonna drive you home tonight

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Linda, uma história horrível - Caio Fernando Abreu


Linda, uma história horrível

Para Sergio Keuchguerian
"
Você nunca ouviu falar em maldição
nunca viu um milagre
nunca chorou sozinha num banheiro sujo
nem nunca quis ver a face de Deus."

(Cazuza: "Só as mães são felizes")

Só depois de apertar muitas vezes a campainha foi que escutou o rumor de passos descendo a escada. E reviu o tapete gasto, antigamente púrpura, depois apenas vermelho, mais tarde rosa cada vez mais claro — agora, que cor? — e ouviu o latido desafinado de um cão, uma tosse noturna, ruídos secos, então sentiu a luz acesa do interior da casa filtrada pelo vidro cair sobre sua cara de barba por fazer, três dias. Meteu as mãos nos bolsos, procurou um cigarro ou um chaveiro para rodar entre os dedos, antes que se abrisse a janelinha no alto da porta.Enquadrado pelo retângulo, o rosto dela apertava os olhos para vê-lo melhor. Mediram-se um pouco assim — de fora, de dentro da casa —, até ela afastar o rosto, sem nenhuma surpresa. Estava mais velha, viu ao entrar. E mais amarga, percebeu depois.— Tu não avisou que vinha — ela resmungou no seu velho jeito azedo, que antigamente ele não compreendia. Mas agora, tantos anos depois, aprendera a traduzir como que-saudade, seja-benvindo, que-bom-ver-você ou qualquer coisa assim. Mais carinhosa, embora inábil.Abraçou-a, desajeitado. Não era um hábito, contatos, afagos. Afundou tonto, rápido, naquele cheiro conhecido — cigarro, cebola, cachorro, sabonete, creme de beleza e carne velha, sozinha há anos. Segurando-o pelas duas orelhas, como de costume, ela o beijou na testa. Depois foi puxando-o pela mão, para dentro.— A senhora não tem telefone — explicou. — Resolvi fazer uma surpresa.Acendendo luzes, certa ânsia, ela o puxava cada vez mais para dentro. Mal podia rever a escada, a estante, a cristaleira, os porta-retratos empoeirados. A cadela se enrolou nas pernas dele, ganindo baixinho.— Sai, Linda — ela gritou, ameaçando um pontapé. A cadela pulou de lado, ela riu. — Só ameaço, ela respeita. Coitada, quase cega. Uma inútil, sarnenta. Só sabe dormir, comer e cagar, esperando a morte.— Que idade ela tem? — ele perguntou. Que esse era o melhor jeito de chegar ao fundo: pelos caminhos transversos, pelas perguntas banais. Por trás do jeito azedo, das flores roxas do robe.— Sei lá, uns quinze. — A voz tão rouca. — Diz—que idade de cachorro a gente multiplica por sete.Ele forçou um pouco a cabeça, esse era o jeito:— Uns noventa e cinco, então.Ela colocou a mala dele em cima de uma cadeira da sala. Depois apertou novamente os olhos. E espiou em volta, como se acabasse de acordar:— O quê?— A Linda. Se fosse gente, estaria com noventa e cinco anos.Ela riu:— Mais velha que eu, imagina. Velha que dá medo. — Fechou o robe sobre o peito, apertou a gola com as mãos. Cheias de manchas escuras, ele viu, como sardas (ce-ra-to-se, repetiu mentalmente), pintura alguma nas unhas rentes dos dedos amarelos de cigarros. — Quer um café?— Se não der trabalho — ele sabia que esse continuava sendo o jeito exato, enquanto ela adentrava soberana pela cozinha, seu reino. Mãos nos bolsos, olhou em volta, encostado na porta.As costas dela, tão curvas. Parecia mais lenta, embora guardasse o mesmo jeito antigo de abrir e fechar sem parar as portas dos armários, dispor xícaras, colheres, guardanapos, fazendo muito ruído e forçando-o a sentar — enquanto ele via. Manchadas de gordura, as paredes da cozinha. A pequena janela basculante, vidro quebrado. No furo do vidro, ela colocara uma folha de jornal. País mergulha no caos, na doença e na miséria — ele leu. E sentou na cadeira de plástico rasgado.— Tá fresquinho — ela serviu o café. — Agora só consigo dormir depois de tomar café.—A senhora não devia. Café tira o sono.Ela sacudiu os ombros:— Dane-se. Comigo sempre foi tudo ao contrário.A xícara amarela tinha uma nódoa escura no fundo, bordas lascadas. Ele mexeu o café, sem vontade. De repente, então, enquanto nem ele nem ela diziam nada, quis fugir. Como se volta a fita num videocassete, de costas, apanhar a mala, atravessar a sala, o corredor de entrada, ultrapassar o caminho de pedras do jardim, sair novamente para a ruazinha de casas quase todas brancas. Até algum táxi, o aeroporto, para outra cidade, longe do Passo da Guanxuma, até a outra vida de onde vinha. Anônima, sem laços nem passado. Para sempre, para nunca mais. Até a morte de qualquer um dos dois, teve medo. E desejou. Alívio, vergonha.— Vá dormir — pediu. — É muito tarde. Eu não devia ter vindo assim, sem avisar. Mas a senhora não tem telefone.Ela sentou à frente dele, o robe abriu-se. Por entre as flores roxas, ele viu as inúmeras linhas da pele, papel de seda amassado. Ela apertou os olhos, espiando a cara dele enquanto tomava um gole de café.— Que que foi? — perguntou, lenta. E esse era o tom que indicava a abertura para um novo jeito. Mas ele tossiu, baixou os olhos para a estamparia de losangos da toalha. Vermelho, verde. Plástico frio, velhos morangos.— Nada, mãe. Não foi nada. Deu saudade, só isso. De repente, me deu tanta saudade. Da senhora, de tudo.Ela tirou um maço de cigarros do bolso do robe:— Me dá o fogo.Estendeu o isqueiro. Ela tocou na mão dele, toque áspero das mãos manchadas de ceratose nas mãos muito brancas dele. Carícia torta:— Bonito, o isqueiro.— É francês.— Que é isso que tem dentro?— Sei lá, fluido. Essa coisa que os isqueiros têm. Só que este é transparente, nos outros a gente não vê.Ela ergueu o isqueiro contra a luz. Reflexos de ouro, o líquido verde brilhou. A cadela entrou por baixo da mesa, ganindo baixinho. Ela pareceu não notar, encantada com o por trás do verde, líquido dourado.— Parece o mar — sorriu. Bateu o cigarro na borda da xícara, estendeu o isqueiro de volta para ele. — Então quer dizer que o senhor veio me visitar? Muito bem.Ele fechou o isqueiro na palma da mão. Quente da mão manchada dela.— Vim, mãe. Deu saudade.Riso rouco:— Saudade? Sabe que a Elzinha não aparece aqui faz mais de mês? Eu podia morrer aqui dentro. Sozinha. Deus me livre. Ela nem ia ficar sabendo, só se fosse pelo jornal. Se desse no jornal. Quem se importa com um caco velho?Ele acendeu um cigarro. Tossiu forte na primeira tragada:— Também moro só, mãe. Se morresse, ninguém ia ficar sabendo. E não ia dar no jornal.Ela tragou fundo. Soltou a fumaça, círculos. Mas não acompanhou com os olhos. Na ponta da unha, tirava uma lasca da borda da xícara.— É sina — disse. — Tua avó morreu só. Teu avô morreu só. Teu pai morreu só, lembra? Naquele fim de semana que eu fui pra praia. Ele tinha horror do mar. Uma coisa tão grande que mete medo na gente, ele dizia. Jogou longe a bolinha com a pintura da xícara. — E nem um neto, morreu sem um neto nem nada. O que mais ele queria.— Já faz tempo, mãe. Esquece — ele endireitou as costas, doíam. Não, decidiu: naquele poço, não. O cheiro, uma semana, vizinhos telefonando. Passou as pontas dos dedos pelos losangos desbotados da toalha. — Não sei como a senhora consegue continuar morando aqui sozinha. Esta casa é grande demais pra uma pessoa só. Por que não vai morar com a Elzinha?Ela fingiu cuspir de lado, meio cínica. Aquele cinismo de telenovela não combinava com o robe desbotado de flores roxas, cabelos quase inteiramente brancos, mãos de manchas marrons segurando o cigarro quase no fim.— E agüentar o Pedro, com aquela mania de grandeza? Pelo amor de Deus, só se eu fosse sei lá. Iam ter que me esconder no dia das visitas, Deus me livre. A velha, a louca, a bruxa. A megera socada no quartinho de empregada, feito uma negra. — Bateu o cigarro. — E como se não bastasse, tu acha que iam me deixar levar a Linda junto?Embaixo da mesa, ao ouvir o próprio nome a cadela ganiu mais forte.— Também não é assim, não é, mãe? A Elzinha tem a faculdade. E o Pedro no fundo é boa gente. Só que.Ela remexeu nos bolsos do robe. Tirou uns óculos de hastes remendadas com esparadrapo, lente rachada.— Deixa eu te ver melhor — pediu.Ajeitou os óculos. Ele baixou os olhos. No silêncio, ficou ouvindo o tic-tac do relógio da sala. Uma barata miúda riscou o branco dos azulejos atrás dela.— Tu estás mais magro — ela observou. Parecia preocupada. — Muito mais magro.— É o cabelo — ele disse. Passou a mão pela cabeça quase raspada. E a barba, três dias.— Perdeu cabelo, meu filho.— É a idade. Quase quarenta anos. — Apagou o cigarro. Tossiu. — E essa tosse de cachorro?— Cigarro, mãe. Poluição.Levantou os olhos, pela primeira vez olhou direto nos olhos dela. Ela também olhava direto nos olhos dele. Verde desmaiado por trás das lentes dos óculos, subitamente muito atentos. Ele pensou: é agora, nesta contramão(*). Quase falou. Mas ela piscou primeiro. Desviou os olhos para baixo da mesa, segurou com cuidado a cadela sarnenta e a trouxe até o colo.— Mas vai tudo bem?— Tudo, mãe.— Trabalho?Ele fez que sim. Ela acariciou as orelhas sem pêlo da cadela. Depois olhou outra vez direto para ele:— Saúde? Dizque tem umas doenças novas aí, vi na tevê. Umas pestes.— Graças a Deus — ele cortou. Acendeu outro cigarro, as mãos tremiam um pouco. — E a dona Alzira, firme?A ponta apagada do cigarro entre os dedos amarelos, ela estava recostada na cadeira. Olhos apertados, como se visse por trás dele. No tempo, não no espaço. A cadela apoiara a cabeça na mesa, os olhos branquicentos fechados. Ela suspirou, sacudiu os ombros:— Coitada. Mais esclerosada do que eu.— A senhora não está esclerosada.— Tu que pensa. Tem vezes que me pego falando sozinha pelos cantos. Outro dia, sabe quem eu chamava o dia inteiro? — Esperou um pouco, ele não disse nada. — A Cândida, lembra dela? Ô negrinha boa, aquela. Até parecia branca. Fiquei chamando, chamando o dia inteiro. Cândida, ô Cândida. Onde é que tu te meteu, criatura? Aí me dei conta.— A Cândida morreu, mãe.Ela tornou a passar a mão pela cabeça da cadela. Mais devagar, agora. Fechou os olhos, como se as duas dormissem.— Pois é, esfaqueada. Que nem um porco, lembra? — Abriu os olhos. — Quer comer alguma coisa, meu filho?— Comi no avião.Ela fingiu cuspir de lado, outra vez.— Cruz credo. Comida congelada, Deus me livre. Parece plástico. Lembra daquela vez que eu fui? — Ele sacudiu a cabeça, ela não notou. Olhava para cima, para a fumaça do cigarro perdida contra o teto manchado de umidade, de mofo, de tempo, de solidão. — Fui toda chique, parecia uma granfa. De avião e tudo, uma madame. Frasqueira, raiban. Contando, ninguém acredita. — Molhou um pedaço de pão no café frio, colocou-o na boca quase sem dentes da cadela. Ela engoliu de um golpe. — Sabe que eu gostei mais do avião do que da cidade? Coisa de louco, aquela barulheira. Nem parece coisa de gente, como é que tu agüenta?— A gente acostuma, mãe. Acaba gostando.— E o Beto? — ela perguntou de repente. E foi baixando os olhos até encaixarem, outra vez, direto nos olhos dele.Se eu me debruçasse? — ele pensou. Se, então, assim. Mas olhou para os azulejos na parede atrás dela. A barata tinha desaparecido.— Tá lá, mãe. Vivendo a vida dele.Ela voltou a olhar o teto:— Tão atencioso, o Beto. Me levou pra jantar, abriu a porta do carro pra mim. Parecia coisa de cinema. Puxou a cadeira do restaurante pra eu sentar. Nunca ninguém tinha feito isso. — Apertou os olhos. — Como era mesmo o nome do restaurante? Um nome de gringo.— Casserole, mãe. La Casserole. — Quase sorriu, ele tinha uns olhos de menino, lembrou. — Foi boa aquela noite, não foi?— Foi — ela concordou. — Tão boa, parecia filme. — Estendeu a mão por sobre a mesa, quase tocou na mão dele. Ele abriu os dedos, certa ânsia. Saudade, saudade. Então ela recuou, afundou os dedos na cabeça pelada da cadela.— O Beto gostou da senhora. Gostou tanto — ele fechou os dedos. Assim fechados, passou—os pelos pêlos do próprio braço. Umas memórias, distância. — Ele disse que a senhora era muito chique.— Chique, eu? Uma velha grossa, esclerosada. — Ela riu, vaidosa, mão manchada no cabelo branco. Suspirou. — Tão bonito. Um moço tão fino, aquilo é que é moço fino. Eu falei pra Elzinha, bem na cara do Pedro. Pra ele tomar como indireta mesmo, eu disse bem alto, bem assim. Quem não tem berço, a gente vê logo na cara. Não adianta ostentar, tá escrito. Que nem o Beto, aquela calça rasgadinha. Quem ia dizer que era um moço assim tão fino, de tênis? — Voltou a olhar dentro dos olhos dele. — Isso é que é amigo, meu filho. Até meio parecido contigo, eu fiquei pensando. Parecem irmãos. Mesma altura, mesmo jeito, mesmo.— A gente não se vê faz algum tempo, mãe.Ela debruçou um pouco, apertando a cabeça da cadela contra a mesa. Linda abriu os olhos esbranquiçados. Embora cega, também parecia olhar para ele. Ficaram se olhando assim. Um tempo quase insuportável, entre a fumaça dos cigarros, cinzeiros cheios, xícaras vazias — os três, ele, a mãe e Linda.— E por quê?— Mãe — ele começou. A voz tremia. — Mãe, é tão difícil — repetiu. E não disse mais nada.Foi então que ela levantou. De repente, jogando a cadela ao chão como um pano sujo. Começou a recolher xícaras, colheres, cinzeiros, jogando tudo dentro da pia. Depois de amontoar a louça, derramar o detergente e abrir as torneiras, andando de um lado para outro enquanto ele ficava ali sentado, olhando para ela, tão curva, um pouco mais velha, cabelos quase inteiramente brancos, voz ainda mais rouca, dedos cada vez mais amarelados pelo fumo, guardou os óculos no bolso do robe, fechou a gola, olhou para ele e — como quem quer mudar de assunto, e esse também era um sinal para um outro jeito que, desta vez sim, seria o certo — disse:— Teu quarto continua igual, lá em cima. Vou dormir que amanhã cedo tem feira. Tem lençol limpo no armário do banheiro.Então fez uma coisa que não faria, antigamente. Segurou-o pelas duas orelhas para beijá-lo não na testa, mas nas duas faces. Quase demorada. Aquele cheiro — cigarro, cebola, cachorro, sabonete, cansaço, velhice. Mais qualquer coisa úmida que parecia piedade, fadiga de ver. Ou amor. Uma espécie de amor.— Amanhã a gente fala melhor, mãe. Tem tempo, dorme bem. Debruçado na mesa, acendeu mais um cigarro enquanto ouvia os passos dela subindo pesados pela escada até o andar superior. Quando ouviu a porta do quarto bater, levantou e saiu da cozinha.Deu alguns passos tontos pela sala. A mesa enorme, madeira escura. Oito lugares, todos vazios. Parou em frente ao retrato do avô — rosto levemente inclinado, olhos verdes aguados que eram os mesmos da mãe e também os dele, heranças. No meio do campo, pensou, morreu só com um revólver e sua sina. Levou a mão até o bolso interno do casaco, tirou a pequena garrafa estrangeira e bebeu. Quando a afastou, gotas de uísque rolaram pelos cantos da boca, pescoço, camisa, até o chão. A cadela lambeu o tapete gasto, olhos quase cegos, língua tateando para encontrar o líquido.Ele abriu os olhos. Como depois de uma vertigem, percebeu-se a olhar fixamente para o grande espelho da sala. No fundo do espelho na parede da sala de uma casa antiga, numa cidade provinciana, localizou a sombra de um homem magro demais, cabelos quase raspados, olhos assustados feito os de uma criança. Colocou a garrafa sobre a mesa, tirou o casaco. Suava muito. Jogou o casaco na guarda de uma cadeira. E começou a desabotoar a camisa manchada de suor e uísque.Um por um, foi abrindo os botões. Acendeu a luz do abajur, para que a sala ficasse mais clara quando, sem camisa, começou a acariciar as manchas púrpura, da cor antiga do tapete na escada — agora, que cor? —, espalhadas embaixo dos pêlos do peito. Na ponta dos dedos, tocou o pescoço. Do lado direito, inclinando a cabeça, como se apalpasse uma semente no escuro. Depois foi dobrando os joelhos até o chão. Deus, pensou, antes de estender a outra mão para tocar no pêlo da cadela quase cega, cheio de manchas rosadas. Iguais às do tapete gasto da escada, iguais às da pele do seu peito, embaixo dos pêlos. Crespos, escuros, macios.— Linda — sussurrou. — Linda, você é tão linda, Linda.

La marca en la pared - Virginia Woolf



LA MARCA EN LA PARED

Quizá fue a mediados de enero del presente año cuando levanté la vista y vi por primera vez la marca en la pared. A fin de concretar el día es preciso recordar lo que una vio. Por esto, ahora, pienso en el fuego, la constante película de luz amarilla sobre la página del libro, los tres crisantemos en el redondeado cuenco de vidrio sobre la repisa de la chimenea. Sí, seguramente era invierno, y acabábamos de tomar el té, por cuanto recuerdo que fumaba un cigarrillo, cuando levanté la vista y vi la marca en la pared por primera vez. Levanté la vista, a través del humo del cigarrillo, y mi vista se fijó durante unos instantes en los carbones ardiendo, y a la mente me vino aquella vieja fantasía de la bandera roja ondeando en lo alto de la torre del castillo, y pensé en la cabalgata de los caballeros rojos ascendiendo por la ladera de la negra roca. Con cierto alivio por mi parte, la visión de la marca interrumpió mi fantasía, ya que se trata de una fantasía vieja, mecánica, quizá nacida en mi infancia. La marca era pequeña y redonda, negra sobre el blanco de la pared, situada seis o siete pulgadas más arriba de la repisa de la chimenea.
Con cuánta rapidez se arremolinan nuestros pensamientos alrededor de un objeto nuevo, levantándolo un poco, de la misma manera en que las hormigas transportan una pajilla muy febrilmente, y luego la abandonan... Si aquella mancha era una marca dejada por un clavo, el clavo no pudo ser colocado allí para colgar un cuadro, sino para una miniatura, la miniatura representando a una señora de blancos rizos empolvados, empolvadas mejillas y labios como claveles rojos. Una falsificación, desde luego, por cuanto la gente que vivía en esta casa antes que nosotros hubiera escogido pinturas así, una vieja pintura para una vieja estancia. Era gente así, gente muy interesante, y si pienso en ella tan a menudo y en tan extraños lugares, ello se debe a que jamás la volveré a ver, ni sabré qué fue de ella. Dejaron esta casa porque querían cambiar el estilo de sus muebles, eso fue lo que él dijo, y estaba él en trance de decir que, a su parecer, el arte debe tener ideas detrás, cuando fuimos separados, tal como se queda separado de la vieja dama en trance de verter el té y del joven a punto de golpear la pelota de tenis en el jardín trasero de la villa en el barrio residencial, cuando se pasa rápidamente en tren.
Pero, en lo referente a la marca, realmente no estoy segura. A fin de cuentas, no creo que fuera una marca dejada por un clavo; era demasiado grande, demasiado redondeada. Hubiera podido levantarme, pero si me levantaba y la miraba, había diez probabilidades contra una de que no supiera averiguarlo con certeza; debido a que, cuando se hace una cosa, una nunca sabe cómo ocurrió. Oh, sí, el misterio de la vida, la inexactitud del pensamiento... La ignorancia de la humanidad... Para demostrar cuan poco dominio tenemos sobre nuestras posesiones —cuan accidental es nuestro vivir, después de tanta civilización—, séame permitido enumerar unas pocas cosas entre todas las que perdemos a lo largo de nuestra vida, comenzando por la pérdida que siempre me ha parecido la más misteriosa entre todas: ¿qué gato es capaz de masticar o qué ratón es capaz de roer, tres estuches azul pálido de herramientas para encuadernar libros? Luego vinieron los casos de las jaulas de pájaros, de los aros de hierro, de los patines metálicos, del recipiente para carbón estilo Reina Ana, del tablero de bagatela, del organillo... todo ello desaparecido, y también las joyas. Ópalos y esmeraldas, enterrados están entre las raíces de los nabos. ¡Qué difícil e irritante asunto es la certeza! Lo increíble es que lleve ropas puestas y esté rodeada de sólidos muebles en este instante. En realidad, si se quiere comparar la vida a algo, debe compararse a que la lancen a una por el túnel del metro a cincuenta millas por hora, para acabar en el otro extremo, sin siquiera una horquilla en el pelo. ¡Que la lancen a una a los pies de Dios totalmente desnuda! ¡Cruzar, rodando los prados de asfódelo igual que los paquetes de papel castaño son lanzados por el tobogán en correos! Con el cabello al viento, como la cola de un caballo de carreras. Sí, esto parece expresar la rapidez de la vida, el perpetuo destrozo y reparación, todo tan al azar, tan sin sentido...
Pero después de la vida. El lento arrancar de gruesos tallos verdes, de manera que el cáliz de la flor, al inclinarse, no arroje sobre una un diluvio de luz roja y morada. A fin de cuentas, ¿por qué no habría una de nacer allá, tal como nació aquí, indefensa, sin habla, incapaz de centrar la vista, a tientas entre las raíces del césped, entre los dedos de los pies de los Gigantes? Y en lo tocante a decir lo que son árboles, lo que son hombres y mujeres, o si semejantes entes existen, no se estará en condiciones de hacerlo en el curso de cincuenta años aproximadamente. No habrá nada, salvo espacios de luz y de tinieblas, cruzados por recias vallas, y quizá, bastante arriba, marcas en forma de rosa de confuso color —oscuros rosados y azules— que, al paso del tiempo, se harán menos confusas, se convertirán en... No sé en qué.
Pero esa marca en la pared no es un agujero, ni mucho menos. Puede haber sido causada por una sustancia redonda y negra, como un pequeño pétalo de rosa, resto del pasado verano, ya que no soy un ama de casa muy esmerada —y, como demostración, basta mirar, por ejemplo, el polvo en la repisa del hogar, polvo que, según dicen, enterró a Troya tres veces, y sólo algunos fragmentos de cerámica se resistieron a ser aniquilados, lo cual parece cierto.
El árbol junto a la ventana golpea muy levemente el vidrio... Quiero pensar tranquilamente, en calma, anchamente, sin ser jamás interrumpida, sin tenerme que levantar jamás del sillón, deslizarme fácilmente de una cosa a otra, sin sensación de hostilidad, de obstáculos. Quiero hundirme más y más, lejos de la superficie, con sus duros y separados hechos. Para tranquilizarme, voy a fijarme en la primera idea que se me ocurra... Shakespeare... Importa tanto como cualquier otro. Un hombre que se sentaba firmemente en un sillón, y contemplaba el fuego, de modo que... un diluvio de ideas caía perpetuamente desde un cielo muy alto sobre su mente. Apoyaba la frente en la palma de la mano, y la gente miraba por la puerta abierta, ya que esta escena ocurre, supuestamente, en una noche de verano... Pero cuan aburrido es esto, esta novela histórica... No me interesa nada. Me gustaría encontrar unos pensamientos agradables, unos pensamientos que fueran un camino que indirectamente me reportara prestigio, ya que éstos son los pensamientos más agradables, y se encuentran muy a menudo incluso en la mente de la gente de modesto color ratonil, que sinceramente cree que no le gusta oír que les canten alabanzas. No son pensamientos que la alaben a una directamente; esto es lo bueno. Todos ellos son pensamientos como el siguiente:
«Entonces entré en el cuarto. Estaban hablando de botánica. Dije que había visto una flor que crecía en un montón de tierra, en el solar de una vieja casa de Kingsway. La semilla, dije, seguramente fue sembrada durante el reinado de Carlos I. ¿Qué flores había en el reinado de Carlos I?» Esta fue mi pregunta. (Pero no recuerdo la contestación.) Altas flores con bolas moradas quizás. Y así sucesivamente. Todo el tiempo no hago más que evocar mi figura en mi mente, amorosamente, furtivamente, sin adorarla a las claras, ya que, si lo hiciera, me reprimiría, e inmediatamente alargaría la mano en busca de un libro para protegerme a mí misma. De hecho, es curioso ver cuan instintivamente una protege de la idolatría a la propia imagen, así como de cualquier otro tratamiento que pudiera ponerla en ridículo, o que la alejara tanto del original que no se pudiera creer en ella. ¿O quizá no sea tan curioso, a fin de cuentas? Desde luego, es asunto de gran importancia. Cuando el espejo se rompe, la imagen desaparece, y la romántica figura, rodeada de un bosque de verdes profundidades, deja de existir, y sólo queda la cáscara de aquella persona que es lo que los demás ven, ¡y cuan sofocante, superficial, pelado y abrupto se vuelve el mundo! Un mundo en el que no se puede vivir. Cuando nos miramos los unos a los otros en los autobuses o en los vagones del metro, miramos el espejo; y esto explica la vaguedad y el vidriado brillo de nuestros ojos. Y en el futuro los novelistas se darán más y más clara cuenta de la importancia de estos reflejos, por cuanto, desde luego, no hay un solo reflejo, sino un número infinito de ellos. Estas son las profundidades que explorarán, éstos son los fantasmas que perseguirán, apartándose más y más de la descripción de la realidad, en sus historias, dando por supuesto el conocimiento de ellas, tal como hacían los griegos y quizá Shakespeare... Pero estas generalizaciones carecen de todo valor. Traen a la memoria artículos de fondo, ministros del gobierno; en realidad, toda una clase de cosas que, en la infancia, pensábamos eran la cosa en sí misma, la cosa clásica, la cosa real, de la que una no se podía apartar sin riesgo de una condena sin nombre. No sé por qué razón, las generalizaciones evocan los domingos en Londres, los paseos de la tarde del domingo, los almuerzos del domingo, y también maneras de hablar de los muertos, así como las ropas y las costumbres, como la costumbre de estar todos reunidos en una estancia, sentados, hasta cierta hora, a pesar de que a nadie le gustaba. Para todo había una norma. La norma referente a los manteles, en aquel período determinado, decía que debían ser bordados, con pequeños compartimentos amarillos, como los que se ven en las fotografías de las alfombras que cubren los pasillos de los palacios reales. Los manteles de diferente especie no eran manteles verdaderos. Cuan sorprendente y, al mismo tiempo, cuan maravilloso fue descubrir que esas cosas verdaderas, los almuerzos del domingo, los paseos del domingo, las casas de campo y los manteles no eran totalmente reales, que en el fondo eran medio fantasmales, y que la condena que recaía sobre el que se mostraba incrédulo ante ellas sólo consistía en una sensación de libertad ilegítima. Y me pregunto qué es lo que ahora ocupa el lugar de aquellas cosas, aquellas cosas corrientes, reales. Un hombre quizá debiera ser una mujer; el masculino punto de vista que gobierna nuestro vivir, que ha sentado la norma, que ha establecido la Tabla de Precedencia del Whitaker, que se ha convertido, a mi parecer, después de la guerra, en su mitad fantasmal para los hombres y para las mujeres, que pronto, cabe esperar, será arrojada entre risas al cubo de la basura al que van a parar los fantasmas, los aparadores de caoba, los grabados de Landseer, los dioses y los demonios, etcétera, dejándonos con un ilegítimo sentido de libertad. Si es que la libertad existe...
Bajo ciertas luces, la marca en la pared parece surgir de la pared. No es totalmente circular. No estoy segura, pero parece proyectar una visible sombra, de manera que, si pasara el dedo por esta parte de la pared, el dedo ascendería y descendería sobre un pequeño promontorio, como aquellos que se ven en los South Downs y que son, según se dice, cementerios o castros. De entre una cosa y otra, preferiría que fueran tumbas, por cuanto me gusta la melancolía al igual que a la mayoría de los ingleses, y me parece natural, al término de una caminata, pensar en los huesos enterrados bajo la hierba... Seguramente hay un libro que trata del asunto. Algún anticuario habrá desenterrado esos huesos y les habrá dado nombre... ¿Y qué clase de hombre es un anticuario? Me atrevería a decir que, en su mayoría, son coroneles retirados, al mando de ancianos obreros allí, arriba, que examinan piedras y grumos de tierra, y que entablan correspondencia con los clérigos de la vecindad, lo cual, debido a que abren las cartas a la hora del desayuno, les da sensación de importancia, y la comparación de las puntas de flecha exige efectuar viajes a través de los contornos para ir a las poblaciones, una agradable necesidad, tanto para los clérigos como para sus esposas ya entradas en años que desean hacer jalea de ciruela o limpiar el estudio, y tienen muy buenas razones para mantener en estado de perpetua duda la cuestión de si es cementerio o castro, mientras el coronel se siente placenteramente filosófico, al acumular pruebas en uno y otro sentido. Cierto es que, a fin de cuentas, el coronel prefiere creer que se trata de un castro. Y, al ser su tesis contradicha, el coronel pergeña un folleto que se dispone a leer en la reunión trimestral de la sociedad local, cuando la apoplejía le ataca, y su último pensamiento consciente no se centra en su mujer, ni en sus hijos, sino en el castro y en la punta de flecha, que ahora se encuentra en una vitrina del museo de la localidad, juntamente con el pie de una asesina china, un puñado de clavos de los tiempos de Isabel I, gran número de pipas de barro Tudor, una jarra romana y el vaso en que Nelson bebió... algo que no sé.
No, no, nada está demostrado, nada se sabe. Y si ahora me levantara, en este mismo instante, y comprobara que la marca en la pared es realmente —¿qué voy a decir?— la cabeza de un viejo y gigantesco clavo, clavado hace doscientos años, que ahora, gracias al paciente desgaste producido por largas generaciones de criadas, ha asomado la cabeza por la capa de pintura, y tiene la primera impresión de la vida moderna, en esta estancia de paredes pintadas de blanco e iluminada por el fuego del hogar, ¿qué ganaría, yo, con ello? ¿Conocimientos? ¿Más posibilidades de elaborar hipótesis? Sentada, soy tan capaz de pensar como en pie. ¿Y qué es el conocimiento? ¿Qué son nuestros hombres eruditos sino los descendientes de brujas y ermitaños que vivían agachados en cuevas y bosques, cociendo hierbas e interrogando a ratones campestres, y consignando el lenguaje de las estrellas? Y además menos honores les rendimos, a medida que nuestras supersticiones menguan, y que nuestro respeto por la belleza y la salud de la mente aumenta... Sí, cabe imaginar un mundo muy agradable. Un mundo tranquilo y amplio, con flores muy rojas y azules en los campos bajo el cielo. Un mundo sin profesores ni especialistas ni caseros con perfil de policía, un mundo que se pudiera cortar con el pensamiento tal como el pez corta el agua con sus aletas, rozando los tallos de los nenúfares, quedando suspendido sobre conglomerados de blancos huevos marinos... De cuanta paz se goza en este fondo, enraizados en el centro del mundo, y mirando hacia lo alto, a través de las aguas grises, con sus bruscos rayos de luz, y con sus reflejos... ¡si no fuera por el Almanaque de Whitaker!, ¡si no fuera por su Tabla de Precedencias!
Debo ponerme en pie de un salto y ver por mí misma qué es realmente esta marca en la pared, ¿un clavo, un pétalo de rosa, una grieta en la madera?
Y aquí tenemos a la naturaleza jugando una vez más al viejo juego de la autoconservación. La naturaleza se da cuenta de que esta clase de pensamiento no hace más que amenazar con un derroche de energías, incluso con cierta colisión con la realidad, por cuanto, ¿quién se atreverá jamás a alzar un dedo contra la Tabla de Precedencias de Whitaker? Detrás del Arzobispo de Canterbury va el Lord Presidente de la Cámara de los Lores; y el Lord Presidente de la Cámara de los Lores va seguido por el Arzobispo de York. Siempre hay alguien que va detrás de alguien, según la filosofía de Whitaker; y lo más importante es saber quién va detrás de quién. Whitaker sabe, y tú deja, la naturaleza aconseja, que esto te consuele en vez de enfurecerte; y si no puedes quedar consolada, si tienes que destruir esta hora de paz, piensa en la marca en la pared.
Comprendo el juego de la naturaleza, su invitación a actuar, a fin de poner término a todo pensamiento que amenace con excitar o causar dolor. De ahí, supongo, surge nuestro desprecio por los hombres de acción: hombres, presumimos, que no piensan. De todas maneras, nada malo hay en poner punto final a los pensamientos desagradables, por el medio de mirar una marca en la pared.
Realmente, ahora que he fijado la vista en la marca, tengo la sensación de haberme asido a una tabla en el mar, siento una satisfactoria impresión de realidad que inmediatamente convierte a los dos arzobispos y al Lord Presidente de la Cámara de los Lores en proyecciones de sombras. Aquí hay algo definido, algo real. De la misma manera, al despertar a medianoche de una pesadilla horrorosa, una enciende apresuradamente la luz, y yace pasivamente, adorando la cómoda, adorando la solidez, adorando la realidad, adorando el mundo impersonal que es demostración de una existencia que no es la nuestra. Esto es aquello de lo que una quiere tener certeza... Es agradable pensar en la madera. Procede de un árbol; y los árboles crecen, y no sabemos cómo crecen. Crecen durante años y años, sin prestarnos la más leve atención, en prados, en bosques, en las riberas de los ríos, todo ello cosas en las que a una le gusta pensar. Bajo los árboles, las vacas agitan la cola en las tardes calurosas; los árboles pintan a los ríos tan verdes que, cuando una cerceta se lanza a las aguas, una espera verla salir con las plumas teñidas de verde. Me gusta pensar en los peces, en equilibrio contra la corriente, como una bandera tensada por el viento; y los escarabajos peloteros levantando despacio cúpulas con el barro del río. Me gusta pensar en el árbol en sí mismo: primero la inmediata y seca sensación de ser madera, después su movimiento en la tormenta, después el lento y delicioso correr de la savia. También me gusta pensar en el árbol, alzado en las noches invernales en un campo solitario, con todas sus hojas prietamente enroscadas, sin que nada tierno de él quede expuesto a las balas de hierro de la luna, un mástil desnudo sobre la tierra que cae y cae durante toda la noche. El canto de los pájaros forzosamente ha de tener un sonido muy alto y raro en el mes de junio; y qué sensación de frío causarán las patas de los insectos sobre el árbol, a medida que avanzan trabajosamente por las hendiduras de la corteza, o toman el sol en la delgada y verde cúpula de las hojas, y miran rectamente al frente con sus ojos rojos tallados como diamantes... Una tras otra, las fibras se quiebran bajo la inmensa y fría presión de la tierra, y entonces llega la última tormenta, y las ramas más altas, al caer, penetran de nuevo profundamente en la tierra. A pesar de todo, la vida no ha terminado; quedan millones de pacientes y vigilantes vidas para un árbol, a lo largo y ancho del mundo, en dormitorios, en buques, en pavimentos, en cuartos de estar donde hombres y mujeres se reúnen después de tomar el té y fuman cigarrillos. Rebosa pensamientos de paz, pensamientos felices, este árbol. Me gustaría considerar por separado cada árbol, pero hay un obstáculo que lo impide... ¿Dónde estaba? ¿De qué trataba? ¿Un árbol? ¿Un río? ¿Colinas? ¿El Almanaque de Whitaker? ¿Campos de asfódelo? Nada recuerdo. Todo se mueve, cae, resbala, se desvanece... Hay una vasta conmoción de la materia. Alguien se encuentra en pie junto a mí, y dice:
«Salgo a comprar el periódico.»
«¿Sí?»
«Aunque no vale la pena comprar el periódico... Nunca pasa nada. Maldita guerra; que Dios la maldiga... De todas maneras, no veo por qué hemos de tener un caracol en la pared.»
¡Ah, la marca en la pared! Era un caracol.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Chico Buarque


Notícia de jornal

Tentou contra a existência

Num humilde barracão.Joana de tal, por causa de um tal João.


Depois de medicada,

Retirou-se pro seu lar.

Aí a notícia carece de exatidão,O lar não mais existe

Ninguém volta ao que acabouJoana é mais uma mulata triste que errou.

Errou na dose

Errou no amor

Joana errou de joão

Ninguém notou

Ninguém morou na dor que era o seu mal

A dor da gente não sai no jornal.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

De la Guarda

De La Guarda: inacreditável experiência artística que explora sensorialmente os sentidos dos espectadores e atores em um covívio ímpar, que de forma magistral combina diversas formas artísticas em um único espetáculo.

segunda-feira, 27 de abril de 2009


Livre!Livre! Ser livre da materia escrava,Arrancar os grilhões que nos flagelamE livre, penetrar nos Dons que selamA alma e lhe emprestam toda a etérea lava.Livre da humana, da terrestre bavaDos corações daninhos que regelamQuando os nossos sentidos se rebelamContra a Infâmia bifronte que deprava.Livre! bem livre para andar mais puro,Mais junto à Natureza e mais seguroDo seu amor, de todas as justiças.Livre! para sentir a Natureza,Para gozar, na universal Grandeza,Fecundas e arcangélicas preguiças.

Neruda


Para mi corazón basta tu pecho,

para tu libertad bastan mis alas.

Desde mi boca llegará hasta el cielo

lo que estaba dormido sobre tu alma. .

Es en ti la ilusión de cada día.

Llegas como el rocío a las corolas.

Socavas el horizonte con tu ausencia.

Eternamente en fuga como la ola..He dicho que cantabas en el viento

como los pinos y como los mástiles.

Como ellos eres alta y taciturna.

y entristeces de pronto, como un viaje..

Acogedora como un viejo camino.

Te pueblan ecos y voces nostálgicas.y

o desperté y a veces emigran y huyen pájaros que dormían en tu alma.

Lord Byron


Tu Me Chamas Canção, parodiada do português por Lord Byron.Tradução de João Cardoso de Menezes e Souza (Barão de Paranapiacaba).

Em momentos de delícia,

Extática, embevecida,

Numa voz, toda carícia,

Tu me chamas: "Minha vida!"

Sentira, à frase tão doce, Exultar-me o coração,

Se a nossa existência fosse

De perpétua duração.

Levam-nos esses momentos

Ao fim comum dos mortais.

Ou não saiam tais acentos

Dos lábios teus nunca mais,

Ou, mudando a frase terna,

"Minha alma", podes dizer.

Pois a alma não morre; eterna

Qual meu amor, há de ser.

Amrik - Ana Miranda


Amrik, romance histórico de Ana Miranda que conta a saga de uma família libanesa, através da personagem Amina. Datado de final de século XIX, princípios do século XX, a história tem como pano de fundo a imigração libanesa. Relata, em primeira pessoa, a trajetória desta personagem que obrigada por seu pai a acompanhar seu tio a fugir, se dirige a EUA e posteriormente ao Brasil onde passa por dias dificeis e situações complicadas expondo suas angústias e nos revelando o pensamento de uma oriental vivendo agora no ocidente. A sereia não somente ilustra a capa do livro, como também vão percorrendo o interior da obra como uma forma de desvelo que com todo seu mito de 'metade peixe, metade mulher', 'encanta con seu canto e causa sofrimento a quem la escuta'. Amina se apropria de todas estas características mitológicas e vai, juntamente com a sereia (desenhos) transformando-se.

Luís Fernando Veríssimo

O que faz bem pra minha saúde!Acho a maior graça.
Tomate previne isso,cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere...
Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos.
Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.
Prazer faz muito bem.
Dormir me deixa 0 km.
Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha.
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos.
Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de idéias.
Brigar me provoca arritmia cardíaca.
Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago.
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano.
E telejornais... os médicos deveriam proibir - como doem!
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo, faz muito bem!
Você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada. Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde!
E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda!
Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previna.
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca!
Conversa é melhor do que piada.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Economia é melhor do que dívida.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Sonhar é melhor do que nada!

Luís Fernando Veríssimo


A FELICIDADE PODE DEMORAR
Às vezes as pessoas que amamos nos magoam, e nada podemos fazer senão continuar nossa jornada com nosso coração machucado. Às vezes nos falta esperança. Às vezes o amor nos machuca profundamente,e vamos nos recuperando muito lentamente dessa ferida tão dolorosa. Às vezes perdemos nossa fé, então descobrimos que precisamos acreditar, tanto quanto precisamos respirar...é nossa razão de existir. Às vezes estamos sem rumo, mas alguém entra em nossa vida, e se torna o nosso destino. Às vezes estamos no meio de centenas de pessoas, e a solidão aperta nosso coração pela falta de uma única pessoa. Às vezes a dor nos faz chorar, nos faz sofrer, nos faz querer parar de viver, até que algo toque nosso coração, algo simples como a beleza de um pôr do sol, a magnitude de uma noite estrelada, a simplicidade de uma brisa batendo em nosso rosto. É a força da natureza nos chamando para a vida. Você descobre que as pessoas que pareciam ser sinceras e receberam sua confiança, te traíram sem qualquer piedade. Você entende que o que para você era amizade, para outros era apenas conveniência, oportunismo. Você descobre que algumas pessoas nunca disseram eu te amo, e por isso nunca fizeram amor, apenas transaram... Descobre também que outras disseram eu te amo uma única vez. E agora temem dizer novamente, e com razão, mas se o seu sentimento for sincero poderá ajudá-las a reconstruir um coração quebrado. Assim ao conhecer alguém, preste atenção no caminho que essa pessoa percorreu, são fatoresimportantes: a relação com a família, as condições econômicas nas quais se desenvolveu. (dificuldades extremas ou facilidades excessivas formam um caráter), os relacionamentos anteriorese as razões do rompimento, seus sonhos, ideais e objetivos. Não deixe de acreditar no amor. Mas certifique-se de estar entregando seu coração para alguémque dê valor aos mesmos sentimentos que você dá. Manifeste suas idéias e planos, para saber se vocês combinam. E certifique-se de quequando estão juntos, aquele abraço vale mais que qualquer palavra.Esteja aberto a algumas alterações, mas jamais abra mão de tudo, pois se essa pessoate deixar, então nada irá lhe restar. Tenha sempre em mente que às vezes tentar salvar um relacionamento, manter um grande amor, pode ter um preço muito alto se esse sentimento não for recíproco. Pois em algum outro momento essa pessoa irá te deixar e seu sofrimento será aindamais intenso, do que teria sido no passado. Pode ser difícil fazer algumas escolhas, mas muitas vezes isso é necessário. Existe uma diferença muito grande entre conhecer o caminho e percorrê-lo. A tristeza pode ser intensa, mas jamais será eterna. A felicidade pode demorar a chegar, mas o importante é que ela venha para ficar e não esteja apenas de passagem...

Camões


Busque Amor novas artes, novo engenho

Busque Amor novas artes, novo engenho

Para matar-me, e novas esquivanças,Que não pode tirar-me as esperanças,

Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças,

Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto

Onde esperança falta, lá me escondeAmor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto

Um não sei quê, que nasce não sei onde,

Vem não sei como e dói não sei porquê.

Octavio Paz


JUNIO

Bajo del cielo fiel Junio corría

arrastrando en sus aguas dulces fechas...


Llegas de nuevo, río transparente,

todo cielo y verdor, nubes pasmadas,

lluvias o cabelleras desatadas,plenitud, ola inmóvil y fluente.


Tu luz moja una fecha adolescente:

rozan las manos formas vislumbradas,

los labios besan sombras ya besadas,

los ojos ven, el corazón presiente.


¡Hora de eternidad, toda presencia,

el tiempo en ti se colma

y desembocay todo cobra ser, hasta la ausencia!


El corazón presiente y se incorpora,

mentida plenitud que nadie toca:

hoy es ayer y es siempre y es deshora.

León Felipe - México


SE TODOS LOS CUENTOS

Yo no sé muchas cosas,

es verdad

Digo tan sólo lo que he visto.

Y he visto:

que la cuna del hombre la mecen con cuentos...

Que los gritos de angustia del hombre los ahogan con cuentos...

Que el llanto del hombre lo taponan con cuentos...

Que los huesos del hombre los entierran con cuentos...

Y que el miedo del hombre ha inventado todos los cuentos.

Yo no sé muchas cosas es verdad.

Pero me han dormido con todos los cuentos...

Y sé todos los cuentos.


domingo, 26 de abril de 2009

Laura Pausini e Lara Fabian - Concierto en Roma

Semana de Arte Moderna


Lo que se dio en llamar de Pré-Modernismo, en Brasil, no constituyó una "escuela literaria", es decir, no es un grupo de autores afinados alrededor de un único ideario, siguiendo determinadas características. En realidad, Pré-Modernismo es un término genérico que designa una vasta producción literaria que se extiende en los primeros 20 años de este siglo. Ahí vamos a encontrar las más variadas tendencias y estilos literarios, desde los poetas parnasianos y simbolistas, que continuaban con su producción, hasta los escritores que comenzaban a desarrollar un nuevo regionalismo, además de otros mas preocupados con una literatura política y otros, aún, con propuestas realmente innovadoras.


Desde el comienzo de la segunda década del siglo, actividades culturales diversas producirían el inicio del proceso de corrosión de la arte académica brasileña. Observamos algunos de eses episodios:
Oswald de Andrade y Emílio Menezes fundaran, en 1911, la revista de arte Pirralho, cuyos principios cuestionaban el arte brasileño. En ese diario se divulgaran las composiciones de Juó Bananere seudónimo de Alexandre Marcondes Machado, sátiras de textos consagrados de nuestra literatura, considerados hasta entonces como inaudibles. Las sátiras eran bastante irreverentes y divertidas, principalmente porque el autor utilizaba un italiano "macarrónico" para expresarse. Además, tratábase de una lengua comuna en los barrios de São Paulo donde los inmigrantes italianos se fijaban.
La irreverencia seria una de las marcas registradas de la primera fase modernista. Bananere se antecipaba.
En 1912, Oswald de Andrade volvió de su primer viaje a Europa y divulgó las ideas cubistas y futuristas, entre ellas a del verso libre.
En el año siguiente, un pintor ruso que se fijara en Brasil Lasar Segall hizo una exposición de pintura expresionista.
En 1914 fue en turno de Anita Malfatti mostrar cuadros expresionistas, resultado de su pasantía en Alem

El año de 1917 es especialmente marcante en la gestación de la Semana. Primero, porque algunos escritores que futuramente producirian obras modernistas publicaran textos con tímidas innovaciones de lenguaje. Tímidas, pero innovadoras. Es el caso de Mário de Andrade, que bajo el seudónimo de Mário Sobral, publicó Há uma gota de sangue em cada poema. Manuel Bandeira, Menotti del Picchia y Guilherme de Almeida también publicaran novedades. En segundo lugar, porque Anita Malfatti hizo una exposición de pintura con tendencia cubista, generando motivo a una violenta crítica de parte del escritor Monteiro Lobato, que, en un artículo titulado "Paranóia ou mistificação?", reaccionó violentamente a la obra de Anita. El artículo dividió artistas y público, simbolizando el primero confronto abierto entre el viejo y el nuevo.

Lobato radicalizó:
"Hay dos especies de artistas. Un compuesto de los que ven normalmente las cosas y en consecuencia hacen puro arte(...) La otra especie es formada de los que ven anormalmente la naturaleza y la interpretan a la luz de teorías efímeras, bajo la sugestión tan estrábica excesiva. Son productos del cansancio y del sadismo de todos los períodos de decadencia; son frutos de fin de estación, llenos de bichos al nacimiento. Estrellas candentes brillan un instante, las más de las veces con la luz del escándalo, y desaparecen pronto en la oscuridad del olvido... "Pero, fijémonos que Lobato, además de ser, un pré-modernista, con ideas avanzadas, era respetadísimo por toda su intelectualidad, conservadora o no. Su crítica pesó mucho. Mas tarde, Lobato reconoció que entendía poco de artes plásticas para tener escrito todo aquello.

En 1921, Oswald de Andrade publicó un artículo llamando Mário de Andrade de "mi poeta futurista". Ocurre que Oswald tenía leído los originales de Paulicéia desvairada libro que sería publicado en 1922 y representaría el primer libro de poemas modernistas. Mário respondió negando su condición de futurista.
Se explica la actitud de Mário: en ese momento, el Futurismo italiano estaba asociado al nazi-fascismo, ideología desechada por el escritor.
En ese año, Di Cavalcanti hizo una exposición en São Paulo y, según se sabe, lanzó la idea: por que no realizar una "semana" de arte moderna?
Resumidamente, en cuanto no tenían un programa ideológico y estético listo, los modernistas iban tomando contacto con los ismos europeos, a través de libros y revistas.

En las noches de 13, 15 e 17 de febrero de 1922, se abrió al público las puertas del Teatro Municipal de São Paulo, donde variados artistas mostraban obras con un lenguaje nuevo, afinada con las corrientes estéticas del comienzo del siglo. Debemos recordar de que Europa, en ese momento, vivía el movimiento de vanguardia, el Surrealismo.
La apertura de la Semana estuvo a
cargo de Graça Aranha, escritor pré-modernista que adhirió al movimiento de los modernos. Su conferencia A emoção estética na arte moderna fue ilustrada con declamación de poemas. Se seguió la ejecución de piezas de Villa-Lobos.
45. En la segunda noche, Ronald de Carvalho declamó el poema que, entonces se hizo muy conocido, "Os sapos", de Manuel Bandeira, en que se ridicularizaba el Parnasianismo.
Fue la noche más movida de la Semana. Gritos y hurras del público acompañaban la declamación. En el intervalo, Mário de Andrade hizo una conferencia en el pasillo del teatro. En la segunda parte del programa presentase una pianista ya consagrada: Guiomar Novaes.
En la tercera noche, dedicada a la música, hubo un incidente: Villa-Lobos presentose de casaca e ojotas. Pero no era una agresión; el compositor estaba com un pie machucado.
La Semana de Arte Moderna sólo fue posible gracias al apoyo financiero de los hacendados del café. Entonces ahí tenemos una contradicción, porque uno de los objetivos declarados de los organizadores del acontecimiento era "asustar a la burguesía que dormita en la gloria de sus lucros". Propuesta hecha, propuesta alcanzada: chiflos, hurras y, según algunos, hasta agresiones marcaran la reacción de lo público.
Fue ese el clima que marcó la ruptura con el tradicionalismo. Nuestros modernistas de primer momento presentaban un arte que estaba en consonancia con el gran movimiento internacional de renovación de ideas.

Además de utilizar un nuevo lenguaje, los artistas de la Semana atacaban abiertamente el pasado, sobre todo o Parnasianismo. Por que el Parnasianismo? Primero, porque era el estilo que anticipaba más cercanamente el Modernismo; segundo, porque fue un estilo muy apegado a las reglas y modelos; tercero, porque era aún lo que valía como referencia artística para la clase dominante, justamente aquella que se quería choquear.

Obviamente, si hubiera permanecido reducida a São Paulo, la Semana no habría tenido tal importancia renovadora.
A partir de los acontecimientos de l Teatro Municipal, divulgados por la prensa de la época, las nuevas ideas encontraran adeptos en todo país, ora adeptos más serenos, ora más radicales. En el período comprendido entre 1922 y 1930 primera fase del Modernismo manifiestos, revistas, grupos recién-formados se difundieran por el escenario cultural brasileño como nunca había acontecido antes.
Seguramente, había discordancias entre los grupos. A veces, hasta oposiciones fuertes. Pero común a todos, era la certeza de la urgente necesidad de renovación de nuestra cultura.

Tarsila do Amaral - Mamoeiro


sábado, 25 de abril de 2009

Poesia Visual III: Fernando Aguiar


Incidente em Antares - Érico Veríssimo


"Incidente em Antares" : romance de Érico Veríssimo. Primeira parte- romance histórico que conta a formação política e social do Rio Grande do Sul, onde se misturam fato histórico reais com a ficcção de alguns personagens; Segunda parte- 'o incidente': Numa sexta-feira 13, explode a greve geral na cidade de Antares, que por 'casualidade' está isolada do mundo porque devido ao tempo caiu a única ponte que a liga com o resto do estado. Nesta mesma fatídica sexta-feira, morrem 7 pessoas: um advogado, uma prostituta, a líder política da cidade, um bêbado, um pianista, um sapateiro comunista e um sindicalista. Devido a greve geral, seus corpos não podem ser enterrados e, apesar das divergencias de classes sociais, ideológicas, políticas, econômicas, os mortos se unem para exigir seu direito universal: ter um enterro digno. Antes, porém, cada morto necessita resgatar sua história inacabada, já que agora estão livres das amarras que a vida lhes impunha. Através da jornada que os mortos começam a percorrer (tudo em menos de 24 horas se passa) se observa uma verdadeira crítica social e política ao sistema vigente no Brasil e a podridão da sociedade vem à tona.
Excerto
Dona Quitéria ergue-se, depois de dar duas palmadinhas consoladoras no ombro do suicida, e diz em voz alta, como quem se dirige a uma assembléia:- Precisamos fazer alguma coisa! Cícero Branco congrega os outros seis cadáveres:- Companheiros, não é por estar morto que vou deixar de ser o que fui em vida: um advogado. Estive arquitetando um plano...- Fale! - ordena Dona Quitéria.- Qual é o nosso objetivo? O de sermos sepultados dignamente, como é de nosso direito e de hábito, numa sociedade cristã.- O doutor falou pouco mas bem! - exclamou Pudim de Cachaça. - Escutem com a maior atenção. Você aí, Joãozinho, aproxime-se e escute também. A idéia é simples. Amanhã pela manhã marcharemos todos sobre a cidade para protestar...- Uma greve contra os grevistas! - entusiasma-se Dona Quitéria.- Se o fim da marcha é esse - intervém Barcelona -, não contem com este defunto.- Espere - diz o advogado, tocando o braço do sapateiro. - Usemos de todas as nossas armas. Primeiro, a nossa condição de mortos. Sejamos mais vivos que os vivos.- Como?- Impondo à população de Antares a nossa presença macabra. Se não nos enterrarem dentro do prazo que vamos impor, empestaremos com a nossa podridão o ar da cidade.- Que coisa horrorosa, doutor! - diz Erotildes, ajeitando os cabelos num gesto faceiro.- Por que não se põe em votação a proposta do Dr. Cícero? - pergunta o sapateiro.- Bom - faz o advogado. - Não direi que aqui em cima estejamos numa democracia. Imaginemos que isto é uma... uma tanatocracia. (E os sociólogos do futuro terão de forçosamente reconhecer este novo tipo de regime.) Preciso saber se todos vocês me aceitam como advogado, caso em que terão de me passar uma procuração verbal para eu agir em nome do grupo. Dona Quitéria sacode a cabeça num movimento afirmativo. Erotildes, Pudim e Menandro a imitam. Barcelona, porém, hesita: - Primeiro quero conhecer melhor o plano.- Simples. Descemos juntos pela Rua Voluntários da Pátria ruma da Praça da República. Lá nos dispersaremos, cada qual poderá voltar à sua casa... Para isso teremos algumas horas. O essencial (prestem a maior atenção!) é que quando o sino da matriz começar a dar as doze badaladas do meio-dia, haja o que houver, todos devem encaminhar-se para o coreto da praça, sentar-se nos bancos em silêncio e ficar à minha espera.- E que é que você vai fazer? - quer saber João Paz.- Vou primeiro à minha casa buscar uns papéis importantes... Depois me dirigirei à residência do prefeito para lhe entregar um ultimato verbal... ou nos enterram dentro do prazo máximo de vinte e quatro horas ou nós ficaremos apodrecendo no coreto, o que será para Antares um enorme inconveniente do ponto de vista higiênico, estético... e moral, naturalmente."